quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

UM SONHO

O Beijo da Esfinge - Franz V. Stuck - 1895


No entanto, dessa vez não temos em conta qualquer obrigação de obedecer a um tema, assim, narraremos algo que não é costumeiramente pensado como literário. Narraremos um sonho.

O Sr. C., que a vida inteira dedicou-se à pratica do paraquedismo - primeiramente militar e depois de maneira publicitária - sonhou que em uma de suas quedas, avistara um estranho mundo entre as nuvens.

Lá estava, um povo de homens e mulheres diminutos, com sua paisagem de muitas árvores e riachos. E ocorreu, que C., em sua descida, passou por eles como a Lua ou o Sol passam por nós, ou seja, como um grande rosto a mirar-nos pelo interregno de um dia inteiro. Assim cruzara o Sr. C., lentamente como um dia dos liliputianos. Entrementes, ao Sr. C., afetara-lhe um átimo de tempo; e foi o que lhe bastasse para intuir o desiderato daquela espécie.

Os pequeninos seres viviam em um clima inteiramente favorável, ameno. Havia alimento por toda parte. Para aqueles, uma profecia revelara que a missão de todo o povo era reproduzir-se em escala elevadíssima para que assim descessem mais prontamente a um lugar onde poderiam fixar-se com segurança.

Então, a primeira coisa que o Sr. C. viu, quando aproximou sua enorme cara daquele estranho mundo, foi os pequenos seres em atividade sexual - se falar assim não os ofende -. Precisavam aumentar o peso sobre o mundinho que se deslocava para baixo, em uma queda em muito freada pelas copas das árvores, que estranhamente, não davam frutos antes de coparem em formato de imensos cogumelos. Os pomos que brotavam dessas árvores eram o principal alimento das criaturinhas, por isso não as abatiam.

Eram em tudo parecidos com nossa espécie, a não ser pela cor da pele, que, rosada, lembrava nossas crias recém nascidas. Sendo que estas, deles, eram de cor escura como o pelo dos burros; com um golpe-de-vista o Sr. C. divisou uma fêmea parindo seu bebe escuro - é que os nascimentos ocorriam em toda a parte e à toda hora, consequência obrigatória, no caso deles, da atividade sexual. Em adultos via-se-lhes rosados, de um rosa desesperado. Operavam com seus órgãos afins, com intensa energia e prazer, que se lhes não apontariamos estarem a cumprir outra obrigação que não aquela que sempre almejaram incumbir-se. O Sr. C, de fato, corou ao passar bem próximo de um casal que trabalhava. Ao tempo em que se beijavam, ligados, estendiam a mão e apanhavam frutos que devoram com lascívia e devassidão nos olhos.

Quando desceu em terra o Sr. C. estava mudado, perturbara-lhe o que vira.

Sérgio B. Christino

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