segunda-feira, 15 de abril de 2013

JAGUARÃO/RIO BRANCO – PRÓXIMOS E DISTANTES


A fronteira Brasil-Uruguai, especificamente no caso de Jaguarão/Rio Branco, foi – e, em parte, ainda é – objeto de uma visão tradicional e geopolítica de ambos os Estados. Este fato se torna mais notório por ser ela a única, relativamente importante, entre esses dois países, que possui uma Ponte Internacional unindo-os, ou até mesmo, separando-os, pois acaba sendo um gargalo que impede, de certa forma, uma melhor integração entre os dois lados, diferentemente do que ocorre, por exemplo, com as fronteiras Livramento/Rivera, Aceguá Brasil-Aceguá/Uruguai ou Chuí Brasil/Chuy Uruguai. Por ser a única fronteira com um rio por meio, acaba sendo, muitas vezes, prejudicada; justificando assim os versos de um compositor uruguaio de Rio Branco, Duca Marins (música do Jaguarense Hélio Ramirez): “Hay un río que nos une, y un puente que nos separa”.

Historicamente, desde a luta pela sua demarcação, as tentativas de expansão luso-brasileira e de resistência uruguaio-espanhola acabaram caracterizando esta região como uma área de conflito, onde o outro era visto como adversário na fixação de um território próprio. Essas visões, que deveriam ser ultrapassadas, a partir da estabilidade da linha demarcatória, continuaram fazendo parte do imaginário fronteiriço. Valendo-me do escritor Aldyr Garcia Schlee, cito o seu conto “Braulina”, onde há uma passagem que revela todo o drama - invisível, porém real - que envolve essa questão. O casal protagonista está no meio da ponte Mauá, ela dá um passo a mais e está do lado de lá, ele retém o passo e não atravessa a linha imaginária. Ela está no lado uruguaio. Ele, no Brasil. Ele então comenta: “Que engraçado, nós tão perto um do outro e tão separados!”. Nessa frase; nesse momento; nessa divisão, revela-se toda a barreira que não aparece à primeira vista, mas que está aí: presente no cotidiano de cada ser que vive neste espaço de mundo.

Entretanto, ao buscarmos as raízes históricas e culturais da formação do ser fronteiriço, encontramos, na maioria das vezes, um ser que não se considerava nem de um lado e nem de outro da linha divisória. Que se negava, em sua maneira de agir, a seguir o limite imposto pelos mapas e tratados. E foi esse modo de viver que acabou forjando a alma de muitos que foram se fixando na região da fronteira, desde a época da chegada dos europeus e seus descendentes a estas terras; desde os primeiros conflitos oriundos da busca dos portugueses de levarem os seus domínios até o Rio da Prata e da tentativa da Espanha de manter a posse do que considerava seu baseada nos tratados.

Posteriormente, na formação dos países, houve um processo de separação forçada, imposta pelos governos; e que, inegavelmente, foi necessário para a afirmação da identidade de ambas as nações. Porém, na atualidade, em um momento em que parecem ter sido superadas todas as ameaças de conflitos por limites e que se caminha para uma integração regional, busca-se inverter o sentido. Ou seja, almejar uma visão mais homogênea do mundo em que vivemos. Não somente na questão comercial, cuja integração parece bem mais avançada, mas também na questão cultural. Em suma, tratar de ser possível olhar para o “outro” sem vê-lo como “outro”, confirmando a tese de que “posso ser o que você é, sem deixar de ser o que eu sou”. 

Elisangela Vasconcellos
Acadêmica de Pós Graduação em Cultura, Cidades e Fronteiras 

Publicado na coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional em 03/04/2013


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