segunda-feira, 1 de abril de 2013

Das Minhas reminiscências II - 24 de Agosto de 1954


Lá vou eu para o Ginásio de Jaguarão, o Ipinha de saudosa memória: posso dizer que, nesse tempo, começou a se manifestar em mim a paixão pela música. Ouvinte da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, da Rádio Tamoio, da Rádio Tupi, cujas ondas eram mais fáceis de sintonizar do que as rádios de Porto Alegre, encantava-me com os famosos programas de auditório daquela época, com a constelação de seus astros maiores: Francisco Alves, Orlando Silva, Emilinha Borba, Marlene, Aracy de Almeida, Francisco Carlos e por aí me perdia. A comoção com a morte do Rei da Voz, que rendeu inúmeras reportagens através da revista O Cruzeiro – estava cada vez melhor no antológico jargão publicitário do meu grande amigo Pedro Fagundes de Azevedo. Aquela memorável serenata dos quatrocentos Violões em Funeral transmitida pela Rádio Farroupilha de Porto Alegre. E a gente ainda escutava, durante a madrugada, os fantásticos Ritmos da Panair através do som potente de um rádio Phillips holandês, tipo capela, que invadia nossos quartos vindo do restaurante Gruta Jaguarense, situado na esquina em frente ao sobrado onde residíamos. 

No cinema, assistindo as chanchadas da Atlântida, impressionava-me com a interpretação de Silva Neto para Nervos de Aço, cuja autoria ignorava fosse de Lupicínio Rodrigues, ilustre desconhecido para esse analfabeto musical. A ZYU-7 Rádio Cultura de Jaguarão tinha seus programas vesperais de calouros, aos sábados, apresentando as atrações locais no Cine Theatro Esperança, onde pontificavam o regional dos filhos do seu Agostinho – Canhoto, Lourenço e Moacir – e mais o violonista Nery Antonini, além de Napoleão, Severo e Adalberto Mendes, notáveis seresteiros, cuja fama se propagava por toda nossa Zona Sul do Estado, estendendo-se Uruguai adentro. Assim, deleitava-me com esse espetáculo e aproveitava para apreciar a beleza dos cabelos louros encaracolados e pele rosada da jovem Eva Maria Arismendi, nossa futura Miss Rio Grande do Sul, que sempre se fazia presente na platéia acompanhada do seu irmão menor.

*******************

24 de agosto de 1954 – suicídio do presidente Getúlio Vargas, Pedro Bartolomeu Ribeiro, o Tutuca, petebista fanático, compunha um samba externando sua indignação contra Carlos Lacerda, letra e música bem elaboradas, chamava atenção de quem o escutava. Ele era um dos integrantes do conjunto O Ginasiano, também composto por Luiz Carlos Bode Silveira (acordeão), Luiz Fernando Cassal, Geraldo Piuma e Luiz Elder Franco (violões), Eulálio Pato Faria (cavaquinho) e Oscar Godofredo Porraço Porciúncula (percussão), que costumavam se apresentar em festas e eventos beneficentes ou sociais. Tal grupo frequentemente interpretava as composições do Tutuca, uma das quais funcionava como sua característica musical:
Trovejou, relampeou... em seguida choveu.
Trovejou, relampeou... em seguida choveu.
Chuva malvada que chegou no carnaval
e estragou a batucada que todos era a tal...
E agora eu não sei o que fazer,
os cordões já foram embora e deixaram de bater...
Em despedida o povo canta o samba seu:
trovejou, relampeou... em seguida choveu.

Eu não me conformava com tanto talento desperdiçado e insistia com o Tutuca para que encarasse a divulgação da sua obra; ele nem se importava, tantos obstáculos pela frente, tinha mais de suportar a maldição da sua verve que jorrava ao natural, enquanto o seu saudoso vizinho Paulo Soares da Silva se esforçava para juntar a papelada de versos rabiscados e quase perdidos.

José Alberto de Souza
poetadasaguasdoces.blogspot.com


Publicado na coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional  a 27/03/2013
Postar um comentário