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terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Juremir: Esclarecimentos sobre a Direita Miami

O mais comum é que cada personagem não tenha consciência da sua personalidade. O Brasil vem sendo dominado, na classe média e na mídia, por um tipo muito especial, o lacerdinha, representante da direita Miami. 


É um pessoal que se acha sem ideologia, pois, para o lacerdinha autêntico, ideologia é coisa de esquerdista comedor de criancinha. A direita Miami acredita que todo esquerdista é comunista de carteirinha e que sonha com uma sociedade no modelo da Coreia da Norte.


O ideal da direita Miami é comer hambúrguer na Flórida, visitar a Disney todos os anos, ler a Veja, ver BBB, copiar e colar artigos de colunistas que falam todo dia da ameaça vermelha – e não é o Internacional nem o América do Rio -, esbaldar-se em shoppings sem rolezinhos, salvo de patricinhas e mauricinhos, e denunciar programas governamentais, exceto de isenções de impostos para ricos, como esmolas perigosas e inúteis.


A direita Miami tem uma maneira curiosa de raciocinar.
– Se você é esquerdista, por que vai à Europa?
– Não entendi a relação – balbucia o ingênuo.
– Se você é esquerdista, por que tem plano de saúde?


A direita Miami contabiliza as mortes produzidas pelo comunismo, no que tem razão, mas jamais pensa nas mortes produzidas pelo capitalismo no passado e no presente. Mortes por fome, falta de condições sanitárias e doenças evitáveis não impressionam os lacerdinhas. Não parece possível à direita Miami que se possa recusar o comunismo e o capitalismo brasileiro. A social-democracia escandinava, por exemplo, não chama atenção dos sacoleiros de Miami. É uma turma que quer muito Estado para si e pouco para os outros. De preferência, muito Estado para impedir greves, estimular isenções fiscais para grandes empresas e reprimir movimentos sociais.


O mais curioso na direita Miami é que, embora defenda o Estado mínimo na economia, salvo se for a seu favor, gosta de Estado robusto em questões morais como consumo de drogas e de sexualidade, aquelas que, mesmo criticando, costuma praticar e exigir tratamento diferenciado quando o Estado flagra algum dos dela em conflito com a lei. A direita Miami fala ao celular, dirigindo, sobre a sensação de impunidade no Brasil e, se multada, denuncia imediatamente a indústria da multa.


A direita Miami é contra cotas, Bolsa-Família, ProUni e todos esses programas que chama de assistencialistas e eleitoreiros. Vive de olho no impostômetro e, para não colaborar com a excessiva arrecadação dos governos, faz o que pode para sonegar o que deve ao fisco. Roubar do Estado que gasta mal parece-lhe um dever moral superior.
Um imperativo categórico.


A direita Miami vive denunciando Che Guevara, mas nunca fala de Pinochet. Se dá uma melhorada na economia dos camarotes, pode torturar e matar. As vítimas são esquerdistas mesmo. A direita Miami adora metrô em Paris, quando vai até lá, apesar de achar que tem muito museu chato e pouco shopping bacana, mas é contra estação de metrô no seu bairro. Tem medo que atraia “marginais”. A última moda da direita Miami é o sertanejo universitário. Quanto mais a tecnologia evolui, mais a direita Miami se torna primária. O que lhe falta, resolve com silicone.

Juremir Machado da Silva

         Publicado na Coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional em 29/01/2014

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Juremir Machado: Poemazinho sobre os males do assistencialismo


Como dizia o poeta, que país é este?
Que país é este no qual por mero interesse eleitoreiro
Um partido bancou a eleição de um simples torneiro?
Um torneiro sem um dedo, homem, diziam, de meter medo!
E, depois, no lugar dele, elegeram uma guerrilheira,
mulher de faca na bota, que até parece uma pedreira.
Que país é este em que pelo mesmo  interesse eleitoreiro
pratica-se um assistencialismo tido por muito nefasto
capaz de gerar resultados que mal dão para o gasto?
E o gasto é um gosto que faz gente lamber os beiços!
Que país é este em que o assistencialismo eleitoreiro
tem levado milhões de pessoas a comer e beber?
A comer, pasme o leitor, todo santo dia.
Ou quase.
Que país é este em que por interesse eleitoreiro
descarado, compra de votos, tudo o que se sabe,
estão levando os pobres a frequentar a  universidade
e a acreditar numa tal ideia de diversidade?
Que país é este em que por interesse eleitoreiro
abriram os aeroportos e os aviões aos eternos pedestres,
congestionando as nuvens com sertanejos universitários?
Que país é este em que por interesse eleitoreiro
deram cartão de crédito aos primitivos rupestres
e inventaram cotas para quebrar o universalismo branco?
Tudo isso aos solavancos, tudo no mesmo tranco.
Que país é este em que no lugar do universal abstrato,
por coincidência sempre branco e masculino,
põe-se em cena o concreto, preto, pardo, índio e feminino?
Que país é este em que por interesse eleitoreiro
rouba-se, compram-se votos,  corrompem-se deputados,
quase de todos de partidos amigos e aliados num mensalão depois do outro?
Que país é este que aceita esse interesse eleitoreiro
devastador, perverso, ressentido, amargo, violento
que se não for contido  rapidamente, a tempo,
vai acabar mudando a sociedade?
E, o que é pior: mudando para melhor.
Sem dúvida, é preciso tomar providências.
São muitas, claras e graves as evidências
De que caminhamos para o inaceitável:
uma nação capaz de sentir-se meia dona do seu patrimônio,
Ou, ao menos, menos indigente.
Que que é isso, minha gente!
Coisa de louco.
Onde vamos parar assim?
Juremir Machado da Silva

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

O Centenário do Baiano Jorge


Amado , o melhor


Jorge Amado faria 100 anos hoje. É o melhor escritor brasileiro de todos os tempos. Os críticos literários metidos a intelectuais já gastaram muita tinta para diminuí-lo. Inventaram que ser contador de histórias é ruim. Grande escritor seria aquele que reinventa a linguagem. Um Joyce, que ninguém lê, um Guimarães Rosa, cujas cem primeiras páginas derrubam qualquer um. Outros o detonaram por seu militantismo. É a crítica engajada contra o engajamento. Jorge Amado, afora Paulo Coelho, é o único escritor brasileiro realmente conhecido no mundo. Machado de Assis ainda precisa de aval de intelectuais bacanas como Susan Sontag e Harold Bloom para existir no exterior. Todos os outros, mesmo os que mais amamos, inexistem fora do Brasil, salvo nas notas de rodapé de algum especialista. Nem Drummond, nem Clarice, nem Cabral. O mundo dos mortais só conhece e admira Amado.

Faz sentido. Ele criou personagens, mundos, vidas reais, gente falando linguagem de gente. Só Capitu tem tanta vida quanto um personagem de Amado. E, mesmo assim, perde para a exuberância de Gabriela. Volta e meia, alguém diz que Machado de Assis tem sido atrapalhado pelos limites da língua portuguesa. É balela. Verdade pela metade. A difusão universal da obra Jorge Amado prova que línguas não barram o que encanta as pessoas. A literatura russa está aí para não me deixar mentir. Amado foi um gênio, um craque, um monstro da história popular, da narrativa empolgante, envolvente, completa, com ternura, humor, magia, violência, cor local, sentimentos universais, aspirações transcendentais, sincretismo e tudo mais. Machado de Assis foi Pelé. Jorge Amado foi nosso Garrincha. Em certo sentido, Garrincha foi melhor. Um virtuose no seu gênero, na sua especificidade, o que pode colocá-lo acima de Pelé. O Rei do Futebol tem números que deixam tonto. Amado Garrincha cometeu um erro: ser muito popular. Popular como futebol de rua.

Crítico literário, essa categoria em extinção, adora obra chata. Jorge Amado foi incapaz de ser chato. Tem crítico que só admira um texto se tiver neologismos e afetação. Amado passou longe de qualquer afetação. Era autêntico, espontâneo, vital. Não caiu nas complicações linguageiras de Guimarães Rosa nem na secura de Graciliano Ramos. Foi deliciosamente barroco. Nada a ver com a superficialidade vagabunda de Paulo Coelho. Nem com o umbilicalismo dos autores de agora. Ah, se Cristóvão Tezza, que anda julgando o que teremos de bom no futuro, tivesse escrito uma só página de ficção capaz de atar o cadarço do sapato de Jorge Amado! O Brasil não tem Amado atualmente. Não tem um escritor capaz de emocionar o mundo pela profundidade da sua arte abundante e rica.

A mediocridade impera. Há bons escritores. Nenhum com o porte de Amado. Só se conta historinha. Que saudades de Jorge Amado e do seu tempo. Andei relando Jorge Amado. Pensei em largar tudo só para ter tempo de me exilar dentro dos seus livros. Amado, mil vezes Amado, esse Jorge que mata o dragão com estilo.

Juremir Machado da Silva
juremir@correiodopovo.com.br



sábado, 28 de janeiro de 2012

Coluna do Juremir: Nei e o Fórum

Nei Lisboa no III Canto do Jaguar - Jaguarão - 2010 

Fomos ver Nei Lisboa no Teatro Renascença. Já faz parte das características de Porto Alegre como o calorão de janeiro e fevereiro, o friozão de agosto, as flautas entre colorados e gremistas, as brigas do Cpers com os governos e o muro do Guaíba. Nei Lisboa é dez. Como os vinhos gaúchos, está cada vez melhor, embora bom mesmo é um bom vinho francês. Está cada vez melhor por ser o mesmo. Tem humor, ironia, sofisticação e simplicidade. Não é para poucos. Ver Nei Lisboa em tempos de Fórum Social Temático, cria do Fórum Social Mundial, faz pensar no slogan do FSM, só que como pergunta levemente modificada: um outro mundo musical é realmente possível?

Ao contrário do que alguns pensam, sou chinelo. Gosto de tudo, até do que não gosto, depende do dia. Gostar não me impede de criticar. A maior bobagem para mim é a frase "respeita o gosto dos outros". Desrespeitar é proibir, chamar a Polícia, sair atirando. Criticar é do jogo. Vejo no funk, no pagode e até no sertanejo universitário expressões de vitalidade. Gente querendo viver intensa e facilmente. Talvez facilmente demais. Há em Michel Teló esse vitalismo da carne, essa pulsão do corpo, esse apelo aos instintos do qual quase ninguém escapa. Mas isso poderia acontecer de outra maneira? Todo gosto é relativo? É lícito pensar na existência de gostos mais ou menos apurados? É preconceituoso pensar em levar o fã de Michel Teló a gostar de Nei Lisboa? Ou, como diz aquela letra altamente poética que chegou a andar na boca de muita gente não faz muito, "cada um no seu quadrado?".

Nei Lisboa é o D''Alessandro da música do Rio Grande do Sul. E D''Alessandro é o melhor jogador do Inter desde Falcão e Carpegiani. Nei fez a escolha do verdadeiro artista: a qualidade acima da grana e da fama. Poderia estar rico se tivesse aderido à ascensão da chinelagem. Oportunidades não lhe faltaram. Poderia, por exemplo, ter feito músicas melosas para folhetins de televisão. Há algum tempo, um compositor admitiu que alguém precisa fazer o "serviço sujo". Por que jogador de futebol não faz gol e pede música de Nei Lisboa? Essa é pergunta muita séria? Ela pode ser refeita assim: como é formado o nosso imaginário musical? Chato? Pensar é chato, perguntar é chato, responder é muito mais chato. Críticos existem para chatear os outros com suas questões chatas. Todo crítico é mala. Eu sou mala. Mala e chinelo. Só que mala e chinelo com surtos questionadores. Pior não há.

Quando ouço Nei Lisboa, penso: é possível fazer música popular e inteligente. Mas daria para usar embaixo do edredom no "BBB12"? Tenho a impressão que não. Aí Nei Lisboa é um fracasso. Não atingiu esse nível de criatividade. Não é fácil fazer música capaz de cair no gosto dos participantes do programa mais vagabundo da história da televisão brasileira. Até a revista Oia, sempre tão populista, admitiu que se trata de um caso de escola de baixaria. Por isso, fui ver o show do Nei Lisboa. Para me limpar. Sair purificado. Uma mala nova.


Juremir Machado da Silva 
juremir@correiodopovo.com.br

Coluna publicada no Correio do Povo em 27/01/2012 - 

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Coluna do Juremir: Reflexões sobre o Enem


Reproduzimos a Coluna do Juremir Machado no Correio do Povo, edição do dia 26/10/2011 

<br /><b>Crédito: </b> ARTE PEDRO LOBO SCALETSKY

Crédito: ARTE PEDRO LOBO SCALETSKY
Todo ano, na época do Enem, reflito sobre o vestibular. É o sistema mais cruel já aplicado por um país contra os seus jovens. Está baseado na falsa justiça da meritocracia. Um país sério estabelece o escore mínimo a ser alcançado por um estudante para entrar na universidade e banca vagas para todos os aprovados. Esse conhecimento mínimo é exigido em nome do bom acompanhamento das atividades universitárias. Já o vestibular cria uma competição entre os adolescentes, isenta o Estado de abrir vagas para todos e gera a ideia de que só os "melhores" devem chegar à universidade. O primeiro erro é pensar que os vencedores são, de fato, os melhores. Fazer a mesma prova no mesmo horário não estabelece igualdade na competição. As condições de preparação são profundamente desiguais. Salvo exceção, vence o que teve mais tempo e melhores condições de preparação. O vestibular reproduz a desigualdade social.

A segunda falácia do vestibular diz respeito à ideia de que só os melhores devem entrar na universidade. Por quê? É uma concepção elitista, discriminatória e oportunista. Permite a um extrato social manter a ocupação dos melhores espaços da sociedade. A universidade deve receber todo mundo e "melhorar" os menos bons ou os piores. Cada jovem deve ter o direito de ser "melhorado" nos bancos do ensino superior. Deve ser fácil entrar na universidade. Difícil tem de ser a saída. A justificativa para a utilização do vestibular sempre foi a de que não haveria recursos para bancar todo mundo na universidade. É conversa fiada. Por trás dessa racionalização esconde-se a mentalidade meritocrática de reprodução do modelo social dominante. Aos ricos, a universidade. Aos pobres, o ensino técnico. Salvo, obviamente, as exceções que confirmam as regras. O Brasil ficará muito mais decente quando o vestibular acabar.

Volta e meia alguém deixa escapar seu elitismo com um "agora qualquer um entra na universidade" ou "o ensino superior já não é mais o mesmo, pois recebe todo mundo". É isso aí. A universidade precisa receber qualquer um. Exames de saída do ensino médio também são seletivos. Podem ser feitos por fileiras (científica, literária, ciências humanas). Para vencer em cada fileira é adequado fixar um rendimento mínimo em certas matérias. Todos que atingem a meta passam a ter direito a uma vaga. Claro que é mais fácil jogar os jovens numa luta fratricida e lavar as mãos. Chama-se isso de seleção dos melhores. O governo economiza e a sociedade atualiza o mecanismo, denunciado pelo sociólogo Pierre Bourdieu, da distinção social reproduzida pela educação classificatória. O Chile escolheu um modelo ainda mais perverso: a privatização total da educação. Só estuda quem pode pagar caro. É o mesmo que muitos desejam para a saúde. Um tiro no pé.

O Enem precisa transformar-se no exame único de saída do antigo segundo grau e de entrada no mundo do ensino superior. As resistências são óbvias. É muito mais simples organizar tudo como se fosse um campeonato com troféus para quem faz mais gols. Só que é injusto. A época do vestibular passou. Já é tempo de um novo tempo.
Juremir Machado da Silva 
 juremir@correiodopovo.com.br

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Da Coluna do Juremir: Amy e Harry


Publicamos da Coluna do Juremir Machado no Correio do Povo do dia 27/07/2011

<br /><b>Crédito: </b> ARTE PEDRO LOBO SCALETSKY
Crédito: ARTE PEDRO LOBO SCALETSKY
Ficção e realidade confundem-se cada vez mais. Amy Winehouse se foi ao mesmo tempo em que chegou ao fim a saga cinematográfica do personagem mais chato da história das telas e da literatura, o bruxinho insípido Harry Potter, grande formador de futuros leitores de Paulo Coelho. Amy, como Janis Joplin, Jim Morrison, Jimi Hendrix, Brian Jones e Kurt Kobain, morreu antes dos 30. Os bons morrem aos 27. Os médios, aos 72. Os ruins parecem imortais. É o meu consolo. E dos meus críticos. O grande poeta Jean-Arthur Rimbaud, um dos maiores de todos os tempos, também morreu cedo. Largou a poesia aos 20 e foi traficar armas na África, o que, já naquela época, era mais rentável e admirado. Os bons querem viver intensamente. Podem errar brutalmente o caminho, mas buscam sempre o máximo. Amy era personagem de um mundo anacrônico, ultrapassado pela ideologia esotérica e mercantil da era insossa de Harry Potter.

A revista francesa Les Inrockuptibles lançou um manifesto de repúdio a Harry Potter, o eleito sem mérito, cujos "poderes" são inatos ou concedidos por seus protetores, o bonzinho insuportável, o bom menino que não faz artes. Especialmente não faz arte, "inodoro, incolor e sem sabor, garoto intelectualmente banal num universo extraordinário". Um medíocre com bom comportamento. Assino embaixo. Amy era mau exemplo? Pode ser. Não soube viver mais. Naufragou no álcool e nas drogas. Perdeu o controle do seu lado maldito. Harry Potter é bom exemplo? Não. Era o bem transformado em lição permanente de moral. Estou de luto pela morte de Amy Winehouse. Em contrapartida, espero que Harry Potter não volte para atormentar nossas crianças e nossos adolescentes com seu mundo mágico barato. Chega de bruxos, de vampiros e de malas.

Tem muito psicanalista tecendo loas a Harry Potter. Conversa fiada. A única bruxinha interessante era Amy. Morrer cedo é sempre um bom caminho para a sobrevivência. Che Guevara virou mito. Não pagou o mico de ser visto, como Fidel Castro, com um abrigo horrível da Adidas. Humor sombrio à parte, não estamos mais nos anos 1960, como qualquer um já deve ter percebido, se bem que alguns são lentos, e não cabe elogiar a loucura, a morte precoce ou a abertura das "portas da percepção", ou do outro lado, pelo consumo de drogas. Há algo, porém, de inquietante e provocativo nessa sede de viver e nessa incapacidade de aquietar-se. Dizem que Amy não soube lidar com a fama. Besteira. A fama não lhe bastava. Ela não soube encontrar satisfação apenas na fama, que parece bastar aos medíocres. Amy foi o oposto de Harry Potter.

Terrível é saber que ela não voltará. Já Harry Potter sempre poderá ressurgir. Que medo! Amy provou que não há reabilitação para o excesso de talento e para a inconformidade com o trivial do cotidiano. O que ela queria? Não sei. Certamente prazer, felicidade, amor, satisfação e todas essas coisas que para alguns não se resumem a ser famoso ou a poder voltar para casa cheio de sacolas com produtos de grife. Na maldição de Amy havia alguma coisa a ser aproveitada. Xô, Harry Potter. Vai.

Juremir Machado da Silva | juremir@correiodopovo.com.br
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quinta-feira, 31 de março de 2011

Coluna do Juremir no Correio do Povo: Seres infames

Reproduzimos coluna do Juremir Machado no Correio do Povo de hoje sobre luta de Joaquin Nabuco. 


Luta que ainda perdura, mesmo que nossa cidade não tenha, graças ao bom Deus, nenhum indicio de racismo, somos exemplo para o Brasil.  "Não , nós não somos racistas." (clique aqui para ler).
Segundo as ponderadas  palavras da Promotora de justiça  em pronunciamento ( clique aqui pra ler)  sobre caso de estudante baiano pretensamente agredido pela BM em Jaguarão , casos como esses ela tem mais de 40 por dia e , pelas suas palavras, chegamos à conclusão de que a truculência com que seriam tratados os "arruaceiros" por aqui é sem distinção de cor, raça ou credo. Portanto,o corretivo é aplicado democraticamente.
Também digno  de nota,  manchete do semanário "A Folha" de Jaguarão . A Escola Bolsonaro tem seus discípulos espalhados pelo país , inclusive na fronteira. Ei-la: "Estudante baiano mancha imagem da Cidade Heróica em rede nacional de TV, jornais e internet."    ( Jorge Passos)


SERES INFAMES

<br /><b>Crédito: </b> ARTE RODRIGO VIZZOTTO

Crédito: ARTE RODRIGO VIZZOTTO
Mostrei ao governador Tarso Genro, na terça-feira, antes de entrevistá-lo na comemoração do primeiro ano do "Esfera Pública", programa que apresento todos os dias, entre 13h e 14h, na Rádio Guaíba, junto com Taline Oppitz, um parágrafo do livro "O Abolicionista", de Joaquim Nabuco, um dos maiores intelectuais brasileiros. Tarso, homem de livros e de sensibilidade social, sabe perceber a força das palavras. Dizia Nabuco, antes da abolição da escravatura: "Tudo o que significa luta do homem com a natureza, conquista do solo para a habitação e cultura, estradas e edifícios, canaviais e cafezais, a casa do senhor e a senzala dos escravos, igrejas e escolas, alfândegas e correios, telégrafos e caminhos de ferro, academias e hospitais, tudo, absolutamente tudo que existe no país, como resultado do trabalho manual, como emprego de capital, como acumulação de riqueza, não passa de uma doação gratuita da raça que trabalha à que faz trabalhar", doação forçada dos negros aos brancos.

Os negros "doaram gratuitamente" o Brasil construído aos brancos, que nunca os indenizaram por isso. Sempre que alguém brada contra as cotas, eu penso nessa dívida jamais quitada. Somos todos beneficiados por essa "doação" obtida de maneira infame. Pensei nisso ao ler as declarações do indigesto Jair Bolsonaro ao ser questionado por Preta Gil, no programa "CQC", se aceitaria o relacionamento de seu filho com uma negra. O infame Bolsonaro, com quem já discuti na Rádio Guaíba, respondeu que "não corria o risco", pois "eles foram muito bem-educados". Bolsonaro deveria ler esse texto de Joaquim Nabuco. Mas seria inútil. Analfabeto intelectual, ele não o entenderia. Nos últimos anos, só discuti com um sujeito tão intragável quanto Bolsonaro, o insuportável Juca Chaves, cujo reacionarismo já não faz mais ninguém rir.

Bolsonaro alega que se enganou. Não teria pensado que Preta falava em relacionamento do filho dele com uma negra, mas com um gay. Tenta escapar da infâmia racista abrigando-se na infâmia do preconceito sexual. Além de racista e homofóbico, parece burro, se isto não for preconceito meu com esses pobres animais. O preconceito corre solto no Brasil. Tapamos o sol com a peneira nos estádios de futebol. Depois que publiquei "História Regional da Infâmia, O Destino dos Negros Farrapos e Outras Iniquidades Brasileiras", vi pessoas mudaram de comportamento comigo. Não me assusto. Releio Nabuco sobre o primeiro dever de qualquer um no século XIX: "Antes de discutir qual o melhor modo para um povo ser livre de governar-se a si mesmo - é essa a questão que divide os outros - trata de tornar livre a esse povo, aterrando o imenso abismo que separa as duas castas sociais".

Para Joaquim Nabuco não havia dúvida, "o abolicionismo deveria ser a escola primária de todos os partidos, o alfabeto da nossa política". Tudo o mais era menor. Continua sendo. Precisamos abolir o preconceito. Enquanto os Bolsonaro da vida vomitarem infâmias, será preciso combatê-los a golpes de Nabuco. Demora. A inteligência cala lentamente no concreto da estupidez.

Juremir Machado da Silva 
 juremir@correiodopovo.com.br

sexta-feira, 4 de março de 2011

Luta pela imortalidade

Reproduzimos a Coluna do Juremir Machado no Correio do Povo de hoje


Arte: Pedro Lobo Scaletsky
<br /><b>Crédito: </b> PEDRO LOBO SCALETSKY      Essa não! Merval Pereira na Academia Brasileira de Letras em lugar de Moacyr Scliar? É piada. Só pode ser sacanagem do Macaco Simão. Quem conhece Merval Pereira? É aquele colunista do jornal O Globo cujos textos são quilométricos e planos como certas rodovias atravessando desertos. No caso, imensos desertos de ideias, imagens e figuras de linguagem. Merval Pereira é o grau zero da literatura. Na televisão, os seus comentários são hesitantes, tatibitates, povoados pela inexistência absoluta de humor, ironia ou qualquer frase inteligente. Merval publicou um livro: "O Lulismo no Poder". Um monumento ao reacionarismo rasteiro, trivial e metódico. A grande qualidade literária de Merval é ser da Globo.

Sei, sei: estou com inveja. Eu sou a pessoa menos invejosa do mundo. Só tenho inveja de 6 bilhões de pessoas no planeta. Sou megalomaníaco. Capaz! Se eu fosse, me candidataria para a Academia. A Francesa. Que a brasileira não está à minha altura. Alguém acredita numa bobagem dessas? É pura brincadeira com o senso comum. Dã! Tenho de explicar a piada. Merval Pereira vai concorrer certamente com Antonio Torres, que é um escritor de verdade. O poeta Ferreira Gullar, pelo jeito, não vai encarar. Só pode ser vaidade ou medo de perder. Gullar é um baita poeta, um gigante, da estatura de Drummond, Quintana, Vinicius, Bandeira e João Cabral. "Poema Sujo" é melhor do que Ana Paula Arósio e Gisele Bündchen à disposição da fruição estética numa mesma cama. Imaginem só, perder para o escritor Merval Pereira! Aí é a várzea.

Essa vaga, contudo, devia ficar com um escritor gaúcho: Luiz Antônio de Assis Brasil, Luiz de Miranda ou Luis Fernando Veríssimo. O Miranda merece. É um ótimo poeta. Muita gente nunca o leu, mas não gosta dele com aquela alegação preconceituosa: ele é chato. Assis Brasil é um craque como romancista. Veríssimo é vaidoso demais para candidatar-se. Anotem aí, eu, o invejoso e megalomaníaco, defendo que a vaga do Scliar na ABL poderia ser do Veríssimo, de quem sou o único desafeto. E não comecem com papinho furado do tipo "ele está arrependido, "está pedindo desculpas", "deu o braço a torcer" e outras baboseiras dignas de um Merval Pereira. O problema da ABL é que para cada grande, como Scliar, são escolhidos seis toupeiras como José Sarney, Ivo Pitanguy, Paulo Coelho e outros ainda bem menos cotados.

Qual a importância de pertencer a Academia Brasileira de Letras? Nenhuma. Qual a importância de torcer para um time de futebol? Nenhuma. Então, está visto, é muito importante. Além de extremamente perigoso. Entrou, morreu. Mas não é por isso que estou indicando o Veríssimo. Longa vida ao meu mais célebre inimigo. Na verdade, isso de que o cara dura pouco na ABL é mito. O Sarney está lá desde o século XVIII. Apenas um século depois de ter assumido o poder no Maranhão e chegado ao Senado. De minha parte, quero me equiparar a Machado de Assis. É o mínimo que posso merecer e desejar. Fundarei uma academia. A Academia Palomense de Letras. A APL.

Juremir Machado da Silva
juremir@correiodopovo.com.br

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Meus sustos

Reproduzimos a Coluna do Juremir Machado no Correio do Povo de hoje:


Crédito arte: Pedro Lobo
Na semana passada, escrevi aqui (Clique para ler) sobre certos exageros na relação dos seres humanos com seus animais de estimação. Alguns leitores ficaram assustados com a minha opinião. Eu também tenho os meus sustos. Eu me assusto quando ouço alguém dizer que quanto mais conhece os homens, mais prefere os animais. Eu me assusto tentando imaginar com que seres humanos essas pessoas convivem. Eu me assusto quando alguém me diz que o afeto mais sincero nos é dado pelos animais. Mais uma vez, eu me assusto pensando nos amigos, amores e parentes de quem diz isso. Eu me assusto quando vejo crianças pedindo esmola e cachorros com hora marcada para fazer as unhas e pelos. Eu me assusto quando sei que pessoas gastam mais de mil reais por mês com seus cachorrinhos enquanto milhões de brasileiros não ganham isso para sustentar a família.

Eu me assusto quando vejo alguém beijar cachorro na boca, carregá-lo em carrinho de criança ou chamá-lo de meu filhinho. Eu me assusto quando vejo carnívoros contumazes pregarem moral em defesa dos animais. Eu me assusto ao pensar que a mesma sociedade que protege os cães lambe os beiços comendo um cordeirinho mamão assado. Por que essa discriminação com bois, porcos, ovelhas, peixes e galinhas? Eu me assusto pensando que nós, carnívoros, somos cúmplices de assassinatos em massa a cada dia. Eu me assusto com quem maltrata animais e com quem confunde criticar exageros dos seres humanos com não gostar de animais. Eu me assusto quando ouço especialistas explicarem que não há perigo com certos cães desde que eles sejam bem adestrados e conduzidos com guia curta, focinheira, enforcador e por quem tenha força suficiente para detê-los. Uau! Para quê? Por quê? Eu sou muito assustado. Eu me assusto com nossas contradições.

Eu me assusto quando uma criança é morta por um cão feroz, o que acontece com muita frequência, e só ouço palavras para justificar o animal. Eu me assusto com quem diz que só confia no seu cão ou no seu gato. Eu me assusto com quem afirma só conversar com seu bichinho de estimação. Eu me assusto ao pensar que isso pode ser o sintoma de uma sociedade cada vez mais egoísta e umbilical, na qual se prefere destinar os melhores afetos e recursos para animais do que para crianças desconhecidas e necessitadas. Eu me assusto com quem diz "eu amo o meu cachorro" em lugar de "eu gosto muito do meu cachorro". Eu me assusto pensando que não sou exemplo, não faço a minha parte, mas me choco com essa sublimação de afetos represados. Eu me assusto muito.

Eu me assusto inventando ironias para tentar entender essa obsessão. Cães e gatos não correm o risco de fumar crack ou de virar emo. Eu me assusto pensando que algumas pessoas não se assustam com isso e que se pode chamar a humanidade de perigosa, mas não um Pit Bull. Eu me assusto pensando que essa paixão por bichos é um sintoma de solidão. Eu me assusto pensando que certas pessoas amam seus bichos porque podem adestrá-los e submetê-los ainda que lhes gabem a autonomia. Como o personagem de Robert Musil, eu me assusto quando um cavalo é chamado de genial. E um Buldogue de meu amor.

Juremir Machado da Silva
juremir@correiodopovo.com.br

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Papai Noel é um lixo?


Reproduzimos a Coluna do Juremir Machado no Correio do Povo de hoje:

Crédito: ARTE PEDRO LOBO


A Alemanha quer ser o primeiro país ocidental considerado zona livre de Papai Noel. É um movimento semelhante aos que buscam tornar um lugar zona livre de poluição, de terrorismo ou de drogas. Já tem uma cidade mobilizada. Quem reina por lá agora é São Nicolau, personagem turco que está na origem do "Bom Velhinho".

A desconstrução dos mitos não poupa ninguém. O Papai Noel que todos conhecemos, vestido de vermelho, suando nos trópicos, é uma adaptação americana. Segundo os alemães que dele querem se livrar, o Papai Noel "modelo ianque" não passa de um representante comercial, um marqueteiro a serviço do consumismo desenfreado e dos valores materiais.
Nada a ver com o milenar e generoso Nicolau.

A guerra contra Papai Noel não é de hoje. Em 1979, o grupo teatral francês Splendid montou uma peça intitulada "Papai Noel É um Lixo". Em 1982, Jean-Marie Poiré transformou a peça em filme. Esse título provocou comoção. Uma campanha publicitária no metrô parisiense foi recusada para não chocar os passageiros. O nome original da obra, "Papai Noel se meteu uma bala no traseiro", foi abandonado pelos criadores para evitar uma insurreição popular. Os franceses, como se sabe, adoram montar barricadas e jogar paralelepípedos.

Em 1994, os americanos, sempre pragmáticos ou cínicos, fizeram um "remake" do filme com o título de "Mixed Nuts". Mas foi na televisão francesa que o filme de Poiré fez sucesso. Ganhou a admiração de toda uma geração saturada de Noel.

O problema dos alemães não é saber se Papai Noel existe. É eliminá-lo.

Os alemães são radicais e bizarros. Conseguem graus de honestidade avassaladores. Eu ficava aturdido, quando morei em Berlim, pelo de fato de não haver roletas na entrada do metrô. Ficava me sentindo desconfortável com tanta falta de controle. Custei a entender que o controle era muito maior. Controle introjetado, fiscalização rigorosa e punição. Quase fui multado por ter atravessado a rua com o sinal fechado para mim sem um carro visível em 500 metros.

Papai Noel está com os dias contados na Alemanha. É persona non grata. Será condenado por falsidade ideológica e plágio. Apossou-se da identidade de Nicolau. Transformou espiritual em material, dom em consumo, troca de presentes em consumismo, generosidade em mercantilismo.

O visual do Papai Noel atual foi criado pelo cartunista alemão Thomas Nast, em 1886, na revista Harper''s Weeklys. Isso quer dizer que Papai Noel é uma piada? Cada um que julgue. Como se vê, foi uma origem não muito católica. Nem cristã. Mas o novo "look" só emplacou mesmo quando a Coca-Cola, em 1931, lançou uma campanha publicitária para esquentar as vendas de inverno do seu xarope gelado com o velhinho de barba branca vestido de vermelho.

Moral da história: sem marketing nem Papai Noel vai longe. Vocês podem não acreditar, mas assim como o Palmeiras já vestiu azul, o Papai Noel já andou de verde. Os Estados Unidos caçam Bin Laden e Julian Assange. A Alemanha, o Papai Noel. Eu me ocupo de Bento Gonçalves.

Juremir Machado da Silva juremir@correiodopovo.com.br

Clandestino - Gilberto Isquierdo e Said Baja

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