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terça-feira, 6 de agosto de 2013

Novo livro de Aldyr Schlee

EVENTO NA BPP MARCA LANÇAMENTO NACIONAL DE CONTOS DA VIDA DIFICIL 


Bibliotheca Pública Pelotense (BPP) e Editora ArdoTEmpo assinam a realização do encontro que, no próximo 23 , marca a apresentação do novo livro de Aldyr Garcia Schlee. CONTOS DA VIDA DIFICIL é o oitavo titulo de contos da obra de ficção do escritor jaguarense, autor também do romance Don Frutos, lançado em 2010.. Com inicio às 19 horas , no salão nobre da BPP , o evento assinala o lançamento nacional do livro e também a reedição de vários titulos esgotados do autor.Na abertura do evento, o editor Alfredo Aquino formaliza a doação à Bibliotheca Pública Pelotense de cinco exemplares de cada uma das obras de Aldyr Schlee editadas pela ArdoTEmpo.

A apresentação da inédita obra de contos ocorre no ano em que Schlee completa três décadas de caminhada literária - desde a publicação de Contos de Sempre ,em 1983. Ganhador de prêmios nacionais e estaduais de literatura, o jaguarense radicado em Pelotas tem larga trajetória também como tradutor , em especial de autores argentinos e uruguaios. Também versou para o espanhol obras de João Simões Lopes Neto e Cyro Martins.





quarta-feira, 26 de junho de 2013

Avisarias aos personagens do teu sonho?

A Balsa da Medusa - Théodore Géricault

O discípulo reuniu-se com seu mentor espiritual para indagar sobre alguns aspectos da Liberação e sobre aqueles que a alcançam. Dialogaram durante horas. Por fim, o discípulo perguntou ao mestre:

_ Como é possível  que um ser humano liberado através da iluminação, pode permanecer tão sereno, apesar das terríveis tragédias que padece a humanidade?

O mentor tomou as mãos do perplexo discípulo entre as suas e disse-lhe:

_ Supõe que estás dormindo. Em teu sonho vais num barco com muitos passageiros. De repente, o barco encalha e começa a afundar.  Angustiado, te despertas. Nesta situação a pergunta que eu te faço é: Voltarias a dormir rapidamente de novo para avisar aos personagens do teu sonho?

Anônimo Hindu



quinta-feira, 25 de abril de 2013

Como fogo em campo seco!



A notícia chegou como uma brisa leve: El Capitán está de volta! Ao redor do fogo, em meio às campinas, a boa nova ia soprando de rancho em rancho. El Capitán está de volta! Diziam que ele havia sido visto, lá para os lados das Coxilhas de Santa Marta. Não havia dúvidas. Era o mesmo cavalo baio ruano, com as encilhas do Capitán.  A mesma baeta negra, cobrindo seu corpo. Os arreios de prata peruana, com as divisas gravadas. A velha carabina Remington pendurada no costado. Era ele

Aos poucos, a voz cantante cruzava a campanha. De suas casas, homens e mulheres iam se reunindo. Nas esquinas dos povoados, nos boliches, nas canchas de pencas. O que era sussurro virava alvoroço. Que vem revolução por ai! E era um tal de limpar adagas, lustrar coldres, desempoeirar ponchos. Já de pronto havia uma tropa formada aqui, outra acolá. E todos queriam confirmação. Era ele! Fora visto em passo manso, vindo nesta direção. O mesmo chapéu ginete, desgastado e alquebrado. O mesmo lenço, que El Capitán usava atravessado, quase caindo sobre o ombro esquerdo. A mesma adaga longa, “de sangrar milicos”, como ele dizia. E à medida que ia se atestando a veracidade do fato, mais e mais se via os sorrisos, os tapas nas costas, os abraços. Largavam tudo. O gado ficou sem rodeio. As roupas ficaram nos varais. A enxada jogada no roçado. E todos iam se reunindo, cochichando, perguntando, discursando. Era hora de arregimentar. De acordar do sono destas pazes negociadas em gabinetes. Era hora de dar o troco. Liberdade e campereada outra vez! Já bastava de tanto suor. De tantas manhãs, tardes e noites de labuta, para mal por o pão na mesa. E aquelas malditas cercas? E estes arames que espetavam o pala e a alma? Derrubar! Derrubar, que El Capitán está de volta! E se juntavam bolsas de couro e lonas de cobrir. Panelas, alpargatas e chairas. Fumo, erva e canha. E munição para que o inimigo não tivesse queixas. As mães penteavam os filhos, benziam e beijavam suas testas. Vá se aprumando, como fizeram teu pai e teu avô! Arroz, linguiça e sabão no bornal. E um terço para que não faltasse proteção. No meio da praça, um patrício dizia que El Capitán vinha já com uns mil no regimento. E trazendo um dos chefes dos inimigos preso pelo garrão. Ia cruzar a fronteira e incendiar os campos com fumaça e espoleta. Levando a degola em uma mão e a justiça na outra. Tempos de guerra de novo! E a peonada já falava em tomar a prefeitura e arrastar o Intendente porta à fora. O padre correu para a sacristia, guardando a caixa de esmolas entre os lambris do assoalho. No quartel, a milicada corria de um lado ao outro, se apetrechando para dar combate. Até na rádio já tinham avisado. E o burburinho crescia. A noite avançava e avançava também a distância que a notícia percorria. Lá para os lados da capital, diziam, o governador falava em enviar forças da ordem. Despachavam avisos, convocavam reservistas, cancelavam licenças. El capitán está de volta! E com ele o levante, a fúria, a rebelião. 

A esperança é como um rastilho que corre para provocar a explosão. Velhos reviravam seus baús em busca de papéis mais velhos ainda, que confirmavam direitos sobre um naco de terra. El Capitán vais nos devolver o que nos tomaram, diziam para suas esposas, que se debulhavam em lágrimas. No salão paroquial, convertido em quartel general rebelado, se preparava uma mesa e se ajeitavam as cadeiras para receber El Capitán. E um camarada ia fazendo a lista de demandas, rabiscando em nome daqueles que mal tinham aprendido as primeiras letras, mas sabiam o que era seu de direito. No armazém, o dono havia sido encurralado atrás do balcão, enquanto uma turba tratava de reunir víveres para as tropas. E um outro já ia estraçalhando o caderno de contas, alegando que em tempos de luta, cessavam as cobranças. Farinha, feijão e banha. E um ou dois baralhos de truco. Tudo ia sendo colocado em sacos de linho. Mas devidamente anotado, para o caso de “reparações de guerra”. Foi quando chegou um vivente, apeando de seu cavalo e adentrando ao armazém. 

O que tinha para contar era como um balaço no coração. Não tinha Capitán nenhum! Fora tudo invenção de um gaiato, para puxar prosa na volta do fogo, lá para os lados de Santa Marta! Nem uma só palavra foi dita. Um à um, todos foram voltando para o lugar de onde vieram. Baús e malas se fecharam, assim como portas e janelas. O dono do armazém recolheu suas mercadorias e juntou apressado os pedaços das páginas do caderno de dívidas. Do outro lado da rua, o padre varria calmamente a soleira da igreja. O prefeito enxugava a testa com seu lenço bordado. E o delegado puxava a cinta da calça para cima, estufando o peito e exclamando: vamos tomando o rumo das casas que, por enquanto, quem manda por aqui sou eu! Na ponta do balcão, com um olhar sorumbático, depois de um longo gole de canha, um paisano jogou o lenço sobre o ombro esquerdo e sussurrou: por enquanto...

Artur H. F. Barcelos
Historiador, Professor da Universidade Federal do Rio Grande FURG

Publicado na coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional  em 17/04/2013



sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Morte e Vida Severina

arte usuários CAPES - Jaguarão

Estava morto, disso tinha certeza, lembrava de morrer. Da dor excruciante, dos olhos pesados demais para ficarem abertos, pelo sentimento anestésico seguido por uma paz sepulcral. Então, que diabos era aquilo, que roupas eram aquelas de quem era aquele corpo. Parece-se comigo, pensou, enquanto olhava pra baixo e enxergava a barriga levemente protuberante. Uma corda com nó no meio riu, sempre o fazia quando se autodenominava assim.

Teria sido um sonho. A morte? Ou seria um sonho pós-morte, a vida? Essa vida que agora vivia mesmo que soubesse estar morto. Estava confuso, não era para menos, impossível seria não estar. Começou a recorda, encontrou consigo mesmo correndo por um corredor escuro, com os disparos seguindo seus calcanhares, da sua mão suada puxando com força a mão de Helena, como dizendo-lhe: Fique tranquila, vai ficar tudo bem.

Lembrava-se da camisa quadriculada e do sangue que ficaria eternamente impresso nela, do furo de bala lhe penetrando o pulmão e impedindo de respirar algo diferente do que o gosto da morte, eternamente cravejado em sua garganta. Como se chamava naquela vida, não lembrava ao certo? Algo com A, Artur, Alfredo, Anísio, Aloísio, não sabia dizer ao certo. Tinha o nome de um homem morto.

Alguém lhe tocou as costas, uma boca muda começou a mover-se e por alguns instantes pensou que o novo ele era surdo, mas o som começou a se fazer presente, aos poucos, devagar, mas começou a tornar-se algo discernível. Sentiu como se pudesse tocar as palavras, e aquilo o alegrou. O seu interlocutor parecia esperar uma resposta, um sim ou não, pensou, um não ou um sim, preferiu o sim, é sempre mais amigável, responder com sim, sua voz saiu alta, quase um grito. O sujeito encarou-o por alguns instantes, sacou uma arma de um coldre que trazia na cintura e entregou-a ao novo vivo.

Artur, Alfredo, Anísio ou qualquer coisa que o valha, aceitou o souvenir, e espantou-se de como parecia fácil segurar aquela arma, como parecia natural. O sujeito disse então:
- Vamos antes que aqueles dois fujam.

Sentia- se excitado perseguindo alguém, alguém que ele nem sabia quem era, ou por quê perseguia. Contudo, seguiu sua marcha entrou em um longo corredor escuro e viu um casal correndo, estavam a uns cinquenta, sessenta metros, ele segurava a mão dela, e o novo vivo segurava uma arma de calibre 38, correu e correu, eles corriam menos do que ele, sua excitação aumentava, começou a atirar e em alguns segundos alguém caiu. Era o homem a mulher parou. Como se não tivesse mais por que correr, o seu colega que lhe dera a arma, atirou na cabeça dela. Não sobrou muito. Ele o ex morto, recém renascido de aproximou do rapaz caído, seu rosto lhe parecia familiar, gostou da camisa quadriculada do rapaz.

Da onde eu conheço esse cara? De outra vida talvez, levantou as sobrancelhas como um matador de filme americano, preparou o gatilho e mirou entre os olhos, o rapaz sussurrou algo, o novo vivo preferiu não entender, não queria levar com ele uma daquelas frases que nunca se esquece. Atirou e deu meia volta para sua nova vida, o que o rapaz disse e que o novo vivo, ex morto jamais vai saber foi: Meu nome é Antônio e eu vou voltar.

Nicolás Gonçalves

Texto publicado na Coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional do dia 04/10/2012

quinta-feira, 5 de julho de 2012

A Estátua

Arte: J. Passos

O louco Deixaqueeuchuto parou em frente à estátua e, sem atentar para o respeito que aquela imagem deveria representar, sentou-se em seu pedestal. Arrumou a sua perna torta como pôde. Tirou, então, do bolso uma garrafa de cana e tomou um gole fazendo a careta costumeira. Com um gesto ofereceu a garrafa para o seu novo companheiro. 

No começo não gostara daquela intromissão em seus domínios, afinal, a praça era sua. Sua e dos pássaros; porém, com o tempo, fora se acostumando. Já os pássaros... esses, sim, não se acostumaram nunca: desde a inauguração, afastaram-se dali. Primeiro os colibris, depois as pombas e, por último, até mesmo os pardais. Os pardais que a tudo se adaptavam. Nem eles ficaram. Nenhunzinho. Talvez achando que estavam sendo vigiados, talvez por algum outro fenômeno que a sua mente simples não conseguia entender muito bem. Percebera, também, outra coisa: desde o dia da inauguração as crianças também foram rareando. Rareando... e um dia ocorreu de não voltarem mais. Isso o incomodou bastante, porque ele sempre gostara daquelas algazarras na sua praça. Gritos e correria. De vez em quando algum choro passageiro. Gostava disso. Só ficava um pouco chateado quando elas mangavam da sua perna: “Aí vem o Deixaqueeuchuto... aí vem o pé-pé do Deixaqueeuchuto” – gritavam. Aí ele tentava correr atrás delas... mas era só de brincadeira... ele gostava de crianças. Inclusive uma vez um grupo de meninos fez aquela gozação de mau gosto e - por azar - o menorzinho se enredou com o chinelo-de-dedos e caiu. Ele poderia ter agarrado o menino e, assim, dar-lhe uma lição. Mas qual? Ele não saberia o que fazer. Sabia xingar. De longe. Mas não era esse o caso... por isso parou de correr e esperou que o menininho levantasse e desse no pé. Aí, sim, xingou. Eles correndo e ele xingando. Nisso era bom. “Gurizada de uma figa”.

Agora estava ali, sentado. Tomando cachaça e pensando que a praça ficara mais triste. Ele não gostava muito dos pássaros, mas agora concordava que eles faziam falta. Eram tão donos da praça quanto ele. Onde estariam? Perguntava em pensamento. Mas o pior mesmo era a história das crianças. Sentia falta até mesmo das gozações. Olhava para a perna e ficava lembrando: “Aí vem o Deixaqueeuchuto... aí vem o pé-pé do Deixaqueeuchuto”. Não!... Agora elas não vinham mais, e - como não vinham - não tinha a quem xingar; nem de quem correr atrás. Por isso aquela estátua se tornara a sua única companhia; ainda que ela, talvez, tenha sido a causa dessa sua solidão. Pensava isso porque notara que as crianças, invariavelmente, abriam o berreiro quando se defrontavam com a imagem. E não adiantava os pais tentarem fazê-los se acalmar. Só quando se afastavam é que cessavam a choradeira. 

Tomou outro gole, secou os lábios com a manga esfarrapada da sua camisa xadrez, e, então, uma ideia lhe veio à cabeça. Sim... porque não pensara nisso antes? Claro! Era tão simples.
No dia seguinte o louco Deixaqueeuchuto apareceu na praça principal de San Cervando. Não era tão bonita quanto a sua praça, porém lá estavam os pássaros. Centenas deles. Muitos. E estavam as crianças. Elas, ao vê-lo, gritaram: “Aí vem o Deixaqueeuchuto... aí vem o pé-pé do Deixaqueeuchuto”. 


Sentiu-se feliz. De uma felicidade infantil. Feliz como as crianças e os pássaros que antes habitavam a sua praça. Correu atrás de um grupo de pivetes... meio rindo, meio chorando. Correndo e xingando: “gurizada de uma figa... gurizada de uma figa”. Ouviu ainda uma zombaria de um adulto engravatado que, desde a porta da prefeitura, olhava a cena: Ô louco! Resolveste mudar de praça? Sem parar de correr, o Deixaqueeuchuto se virou e respondeu-lhe: Sou louco sim, mas não sou burro. E seguiu correndo.

Martim César Gonçalves

Texto publicado na Coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional do dia  26/06/2012

terça-feira, 29 de maio de 2012

De Fronte à Juventude

      
A Fonte da Juventude - Cranach, O Velho
Meus quarenta anos se aproximavam com a velocidade de um supersônico, mas o som, ao contrário, vinha à frente, anunciando a chegada da crise; a crise dentro da crise. O chumbo emprestava sua cor ao céu e seu peso a mim naquela tarde. Iludido, imaginando algum poder de influência sobre meu eu em declínio, fiz um poema (1)  que sobreviveu apenas quinze minutos; o malogro em cinzas negras.

No bairro em que eu morava as ruas homenageavam todos os conquistadores da América espanhola; “La Conquista” era o seu nome. A deferência estampada na placa de minha rua nada me dizia de especial, em que pese o nome também remeter-nos ao mundo animal, minha paixão indisfarçada. Dobrando a esquina, ora cabisbaixo, ora levantando a cabeça para respirar fundo, achei curioso que o nome da minha rua estivesse afixado na parede de uma casa em azulejos portugueses. “Ponce de Leon”. “Quem foi Ponce de Leon”?

Livros de história e literatura deram-me a resposta: eu era Ponce de Leon. Academias de ginástica, namoradinhas com metade de minha idade, afrodisíacos, vitaminas; soldados de um exército pretensamente imbatível; guerreiros hunos, mongóis, falange macedônica, mercenários. Tribo cooptada ao sabor do desespero.

Ponce de León, num quadro anónimo do ano 1513.
Após três meses, um a um, na ordem inversa em que contratados, foram dispensados de minhas fileiras. As jovens mulheres, meu primeiro recurso, as deixei por último; o general fora vencido, vitimado pelo fogo amigo. Novamente deprimido, agora sob o peso de um poderoso fracasso, revisitei os livros de história e literatura, com seriedade e sem pudor. Somente algo mágico haveria de me salvar. Em alguma floresta América adentro estava o que eu procurava. Reuni tudo o que eu precisava e parti para uma aventura que duraria dois meses.


Fiquei eufórico quando descobri o grande engano de Ponce de Leon. O segredo o acompanhou por todo o tempo sem que ele percebesse. Às vezes a proximidade do objeto nos embaça a visão e enfraquece o discernimento. Mas eu percebi; sim, eu ouvi quem tinha que ser ouvido; não os matei, não os aniquilei. Valorizei-os, respeitei-os e obtive o que procurava. Os índios da floresta me mostraram a verdadeira fonte da juventude: as ervas da mata.

Não ousei fazer o experimento longe de casa. Em vinte e quatro horas estava recuperado da longa viagem. Outras vinte e quatro horas e o coquetel estava pronto. O único “porém” era o último pio da coruja, momento em que deveria acrescentar o penúltimo ingrediente. Embora vivesse na cidade, havia corujas à noite, mas silenciosas que era o diabo. Quando resolveram se manifestar, o fizeram duas quase ao mesmo tempo. Era uma bobagem pensar nisso. Daria certo. Tinha certeza.

Conforme o ensinado pelos índios, bebi o preparado de um só gole (ao contrário de outras mal-sucedidas receitas que prescreviam provar por três vezes) e fui dormir. Às cinco horas da manhã levantei e senti um mal-estar; diferente do que sentia desde o início da crise, mas familiar. O mal-estar evoluiu para o pânico, suor frio, tremor nas mãos. Ainda assim, familiar. As férias e a licença-prêmio acabaram; o trabalho me esperava após sessenta dias.

Na repartição, meus colegas desejaram-me boas-vindas e quiseram saber das novidades. Como um náufrago que se agarra a um objeto qualquer que flutue e o sustente, preservei minhas energias e pouco falei. Olhava pela janela com insistência, como que estudando um roteiro para fuga.

O primeiro dia de trabalho coincidiu com a reunião mensal, realizada dia cinco de cada mês. Quando todos se dirigiram à sala, peguei minha pasta, desviei o caminho e corri para o elevador.

À noite, em casa, convidei uma ex-namorada para jartarmos e passar a noite juntos. Era uma amiga especial, que às vezes também me procurava. Mas, ao contrário do que supunha, sua presença deixou-me ainda mais inseguro, situação agravada por ser a fuga impossível. Convidei-a para entrar, embaraçado, sem conseguir sustentar o olhar. O calor subia-me ao rosto; faltava-me entre as pernas. Disfarçava o mal-estar mexendo-me muito e levantando-me a toda hora para mostrar-lhe algo.

Decidi apressar nossa ida para o quarto. Lá haveria pouca luz; seria menos observado. Porém, vi-me insensível às carícias e julguei não poder chegar à ereção. Não querendo que ela percebesse minha dificuldade, fui ao banheiro e, sentindo-me menos pressionado, consegui equipar-me.

De volta ao quarto, achei melhor não prolongar as preliminares e fomos direto ao ato em si. Após vários orgasmos dela, eu, banhado de suor, insistia com o corpo, mas vagava em pensamentos, convencido de que o gozo (que não veio) não viria. “Quase matou-me”, diria-me mais tarde. Pedi que parasse de me chamar de “meu garanhão” e ela foi embora feliz, sem se importar com a forma indelicada, seca, com que a ela me dirigi.

O dia seguinte era um sábado. Fui à casa de meu pai, a casa onde passei toda a minha infância, para ajudá-lo a limpar e pôr em ordem o velho porão. Durante o caminho, logo após passado o efeito que o frescor da manhã causa às pessoas, minhas mãos começaram a ficar suadas e a garganta levemente ressecada. No portão, senti-me pequenininho, como que encolhido, com medo de ser visto pelos vizinhos, os mesmos de tantos anos atrás; não sabia se entrava, se me anunciava, se recuava. Meu pai apareceu à janela e mandou-me entrar.

Apertei sua mão sem olhar em seus olhos e fui direto ao porão. Dispensei sua ajuda, mas ele insistiu em supervisionar os trabalhos. Desde criança, quando me dizia “vamos fazer isso, vamos fazer aquilo”, eu já sabia que sua participação se limitaria a dar ordens e fiscalizar. Durante três horas permaneci calado, acuado, temeroso de não estar fazendo o trabalho ao gosto de meu pai. Terminada a tarefa, despedi-me, recusando o convite para jantar. Em casa, exausto, derrotado, amargurado, abri uma garrafa de uísque doze anos, com o que compreendi o que havia acontecido. Definitivamente era preciso procurar ajuda. Liguei para quem achei que nunca mais veria, após aquele último encontro, cinco anos antes: minha ex-terapeuta. No dia e hora marcados, cumprimentei-a e fui logo deitando no divã.

- Sente-se, por favor; não estamos em tratamento. – disse ela com delicadeza.
- Oh, desculpe, a força do hábito. Além disso, receio não poder falar assim, de frente.
- E por quê?
- Bem, – comecei, respirando fundo - vou direto ao assunto. Nossos doze anos de trabalho se perderam, doutora. Voltei a ser o que era antes da terapia. Voltei a ser o jovem que fui.

Edson Júlio Martins

(1) O poema ainda existe na memória de um amigo, para quem recitei por telefone antes de destruí-lo. As fortes emoções por que passei (o leitor poderá atestá-lo) fizeram com que o esquecesse.   

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Contos - A la deriva - Horacio Quiroga


Arte: Jorge Passos

El hombre pisó algo blancuzco, y en seguida sintió la mordedura en el pie. Saltó adelante, y al volverse con un juramento vio una yaracacusú que, arrollada sobre sí misma, esperaba otro ataque.

El hombre echó una veloz ojeada a su pie, donde dos gotitas de sangre engrosaban dificultosamente, y sacó el machete de la cintura. La víbora vio la amenaza, y hundió más la cabeza en el centro mismo de su espiral; pero el machete cayó de lomo, dislocándole las vértebras.

El hombre se bajó hasta la mordedura, quitó las gotitas de sangre, y durante un instante contempló. Un dolor agudo nacía de los dos puntitos violetas, y comenzaba a invadir todo el pie. Apresuradamente se ligó el tobillo con su pañuelo y siguió por la picada hacia su rancho.

El dolor en el pie aumentaba, con sensación de tirante abultamiento, y de pronto el hombre sintió dos o tres fulgurantes puntadas que, como relámpagos, habían irradiado desde la herida hasta la mitad de la pantorrilla. Movía la pierna con dificultad; una metálica sequedad de garganta, seguida de sed quemante, le arrancó un nuevo juramento.

Llegó por fin al rancho y se echó de brazos sobre la rueda de un trapiche. Los dos puntitos violeta desaparecían ahora en la monstruosa hinchazón del pie entero. La piel parecía adelgazada y a punto de ceder, de tensa. Quiso llamar a su mujer, y la voz se quebró en un ronco arrastre de garganta reseca. La sed lo devoraba.

-¡Dorotea! -alcanzó a lanzar en un estertor-. ¡Dame caña!
Su mujer corrió con un vaso lleno, que el hombre sorbió en tres tragos. Pero no había sentido gusto alguno.
-¡Te pedí caña, no agua! -rugió de nuevo-. ¡Dame caña!
-¡Pero es caña, Paulino! -protestó la mujer, espantada.
-¡No, me diste agua! ¡Quiero caña, te digo!
La mujer corrió otra vez, volviendo con la damajuana. El hombre tragó uno tras otro dos vasos, pero no sintió nada en la garganta.

-Bueno; esto se pone feo -murmuró entonces, mirando su pie lívido y ya con lustre gangrenoso. Sobre la honda ligadura del pañuelo, la carne desbordaba como una monstruosa morcilla.

Los dolores fulgurantes se sucedían en continuos relampagueos y llegaban ahora a la ingle. La atroz sequedad de garganta que el aliento parecía caldear más, aumentaba a la par. Cuando pretendió incorporarse, un fulminante vómito lo mantuvo medio minuto con la frente apoyada en la rueda de palo.

Pero el hombre no quería morir, y descendiendo hasta la costa subió a su canoa. Sentose en la popa y comenzó a palear hasta el centro del Paraná. Allí la corriente del río, que en las inmediaciones del Iguazú corre seis millas, lo llevaría antes de cinco horas a Tacurú-Pucú.

El hombre, con sombría energía, pudo efectivamente llegar hasta el medio del río; pero allí sus manos dormidas dejaron caer la pala en la canoa, y tras un nuevo vómito -de sangre esta vez- dirigió una mirada al sol que ya trasponía el monte.

La pierna entera, hasta medio muslo, era ya un bloque deforme y durísimo que reventaba la ropa. El hombre cortó la ligadura y abrió el pantalón con su cuchillo: el bajo vientre desbordó hinchado, con grandes manchas lívidas y terriblemente doloroso. El hombre pensó que no podría jamás llegar él solo a Tacurú-Pucú, y se decidió a pedir ayuda a su compadre Alves, aunque hacía mucho tiempo que estaban disgustados.

La corriente del río se precipitaba ahora hacia la costa brasileña, y el hombre pudo fácilmente atracar. Se arrastró por la picada en cuesta arriba, pero a los veinte metros, exhausto, quedó tendido de pecho.

-¡Alves! -gritó con cuanta fuerza pudo; y prestó oído en vano.
-¡Compadre Alves! ¡No me niegue este favor! -clamó de nuevo, alzando la cabeza del suelo. 

En el silencio de la selva no se oyó un solo rumor. El hombre tuvo aún valor para llegar hasta su canoa, y la corriente, cogiéndola de nuevo, la llevó velozmente a la deriva.

El Paraná corre allí en el fondo de una inmensa hoya, cuyas paredes, altas de cien metros, encajonan fúnebremente el río. Desde las orillas bordeadas de negros bloques de basalto, asciende el bosque, negro también. Adelante, a los costados, detrás, la eterna muralla lúgubre, en cuyo fondo el río arremolinado se precipita en incesantes borbollones de agua fangosa. El paisaje es agresivo, y reina en él un silencio de muerte. Al atardecer, sin embargo, su belleza sombría y calma cobra una majestad única.

El sol había caído ya cuando el hombre, semitendido en el fondo de la canoa, tuvo un violento escalofrío. Y de pronto, con asombro, enderezó pesadamente la cabeza: se sentía mejor. La pierna le dolía apenas, la sed disminuía, y su pecho, libre ya, se abría en lenta inspiración.

El veneno comenzaba a irse, no había duda. Se hallaba casi bien, y aunque no tenía fuerzas para mover la mano, contaba con la caída del rocío para reponerse del todo. Calculó que antes de tres horas estaría en Tacurú-Pucú.

El bienestar avanzaba, y con él una somnolencia llena de recuerdos. No sentía ya nada ni en la pierna ni en el vientre. ¿Viviría aún su compadre Gaona en Tacurú-Pucú? Acaso viera también a su ex patrón mister Dougald, y al recibidor del obraje.

¿Llegaría pronto? El cielo, al poniente, se abría ahora en pantalla de oro, y el río se había coloreado también. Desde la costa paraguaya, ya entenebrecida, el monte dejaba caer sobre el río su frescura crepuscular, en penetrantes efluvios de azahar y miel silvestre. Una pareja de guacamayos cruzó muy alto y en silencio hacia el Paraguay.

Allá abajo, sobre el río de oro, la canoa derivaba velozmente, girando a ratos sobre sí misma ante el borbollón de un remolino. El hombre que iba en ella se sentía cada vez mejor, y pensaba entretanto en el tiempo justo que había pasado sin ver a su ex patrón Dougald. ¿Tres años? Tal vez no, no tanto. ¿Dos años y nueve meses? Acaso. ¿Ocho meses y medio? Eso sí, seguramente.

De pronto sintió que estaba helado hasta el pecho.
¿Qué sería? Y la respiración...
Al recibidor de maderas de mister Dougald, Lorenzo Cubilla, lo había conocido en Puerto Esperanza un viernes santo... ¿Viernes? Sí, o jueves...

El hombre estiró lentamente los dedos de la mano.

-Un jueves...

Y cesó de respirar.





quarta-feira, 2 de maio de 2012

Poemas de la ciudad


Restos
Hierros oxidados echan raíces
en el fondo de la bahía.
-Las palabras se congelan
escuchando las formas-
Olvidado retazo de un barco
la espuma  le golpea una  pierna.
Un brazo estirado sobrevuela el agua.
Se perfila el cerro.
Cruza un carguero de manos blancas.
El sol dibuja sombras y platea la superficie
de la que emergen, inmóviles,
los despojos.

Domingo I

El hombre de la valija duerme la siesta en la escollera.
Sus ropas tendidas al sol.
Un viejo pescador recoge la línea con el ril.
El padre cuida a su hijo. El hijo habla y desborda el silencio.
Viejos barcos llenan con su presencia la bahía.
Una tormenta se acerca por el sur.
Brilla el sol entre nubes blancas sobre el agua quieta.
Tan quieta como sabe estar el agua.


Domingo II

Escamas de pescado aplastadas sobre el cemento.
Rosas de carne destripadas aquí y allá.
Una cabeza sin ojos espera en una esquina de roca.
Al sur, el mar aúlla, levanta espuma, devora piedras.
Al norte, en la bahía en calma estallan brillos, de sol, de gasoil, en el agua gris.
La ciudad empequeñecida se desliza por las laderas del cerro y regala torretas de iglesias y antenas.
Al este, edificios recortados se iluminan con la tarde.
Allá una manzana de historia con ventanas desgarradas y solitarias. 
Más acá, una grúa roja corta el viento.
Tozudo, el futuro vidriado compite con la torre de la Aduana por un pedazo de cielo.
Al oeste, el horizonte.

Rosario Beisso

Sobre a autora: Nace en Uruguay, en 1960. Realiza estudios de Filosofía y Sociología, siendo una apasionada lectora de toda la vida, se dedica a la escritura desde los noventa. Publica su primer libro de poesía en 2005, y desde entonces han sido publicados tres cuentos de su autoría, seleccionados en diferentes concursos. Ha publicado artículos de crítica y reportajes en el mensuario Relaciones desde el año 2005.

Decir Adiós foi o primeiro livro de poesias publicado por Rosario Beisso . Também escreveu La francesa que vino del mar , conto publicado por Editora Santillana e que obteve menção no Concurso Mujeres con hormonas en 2008.

No Blog da Rosário, Escritos MQRB, estão publicados vários contos que fazem parte do livro Cuentos por su cuenta, o qual ganhou uma das cinco menções no concurso de Cuentos Horacio Quiroga 2010, organizado pela Casa Horacio Quiroga e a intendencia de Salto.



terça-feira, 17 de abril de 2012

Dica da Confraria: Contos Completos de Sérgio Faraco


Com a alma no Sul - uma leitura dos "Contos Completos" de Ségio Faraco


Ler os Contos completos de Sérgio Faraco sempre carrega minha alma para o passado e para o Sul. Só falta um bom inverno para completar o astral da leitura, que, nesses casos, vai melhor acompanhada de um vinho e uma lareira, ou um fogo de chão, simplesmente.

Na primeira parte da obra, Faraco reúne os contos de teor regionalista, ambientados na região da fronteira, local onde se encontram os gaúchos do Rio Grande do Sul, Argentina e Uruguai, terra de muitas lutas, pobreza e solidão. Terra em que, para sobreviver sendo pobre, é necessário ter “algo más que leche em los cojones”. Sim, porque, nestes contos, os principais personagens são os deserdados, os peões, as putas, os borrachos (bêbados) de bolicho e os chibeiros,  contrabandistas que lutam no seu dia a dia contra a miséria, a polícia de fronteira e as águas e agruras do rio Uruguai e seu sertão. Mas não pense, caro leitor, que são contos “bairristas”, extremamente descritivos e repletos de expressões regionais. Neles não há o gosto do exótico,  a preocupação primeira em fixar a imagem da região e do tipo local segundo o mito do centauro dos pampas. Diversamente, ele dialoga com o regionalismo e o mito de forma renovada, não conservadora, recusando a ideologia do gauchismo. Ideologia que Tau Golin desnuda em livro homônimo,[i] para desgosto dos tradicionalistas de CTG.

O realismo ocorre também no plano estilístico, pois os textos são curtos, flagrantes do cotidiano reveladores da alma, com uma linguagem simples, direta (mas sem preocupações vanguardistas), em que os “regionalismos” linguísticos entram na medida exata, sem exageros e exotismos. Tanto é assim, que o estilo e a temática principal se mantêm nas outras duas partes da obra: na segunda, cujos personagens são crianças e/ou adolescentes, e na terceira, que nos remete ao meio urbano. Nestas duas partes, Faraco transita pela literatura infanto-juvenil e pelo conto urbano, cuja ambientação recorrentemente - especialmete na terceira parte - nos remete a locais característicos de Porto Alegre (como o Café Paris, o Majestic Hotel, os bares do centro da cidade, o Parque da Redenção) sem cair nos estereótipos de cada gênero, ou seja, sem idealizar a infância em narrativas de teor didático, utilitaristas conforme o “bom gosto burguês”[ii], e nem cair no bairrismo, no retrato da cor local porto-alegrense. Conforme as palavras de Miguel Sanches Neto, que recusa, com boa razão, a expressão “regionalismo” para os contos:

Os contos da segunda parte remetem também a um tempo mítico, já não mais ligado a um espaço de exceção. São histórias que focalizam a infância, seus dramas e valores em saudável desarmonia com o modus vivendi dos adultos. Não é uma forma de concepção idealizada dessa fase da vida, pois a sensação de perda de um país íntimo marca essas histórias em que a sexualidade aparece naturalmente. A solidão também se manifesta nesse segmento do livro [...]. São imagens em que a infância, desenrolando-se em contato muitas vezes brutal com a realidade, é vista como o momento de aprender as leis da sobrevivência.
Nessas duas etapas temos um espaço e um tempo deslocados. A terceira coloca em cena o homem na cidade grande, tentando ludibriar a solidão. O contista se dedica a essa fauna que, perdida no abismo entre o passado e o presente, procura recompensar o sentimento de incompletude através da amizade e principalmente da relação sexual. Desconheço, na literatura brasileira contemporânea, escritor que trate de forma tão contundente e, ao mesmo tempo, tão natural o encontro erótico. Para Faraco o amor é muito mais do que encontro de dois corpos em busca do prazer, mas a maneira de se solidarizar com quem também sofre as asperezas da vida. [retirado da orelha do livro]

E falando no encontro erótico, que perpassa as três partes da obra e é tematizado sem os traumas do pecado que assombra a nossa cultura judaico-cristã (o que é uma grande virtude, principalmente nos contos da segunda parte, visto serem narrativas mais voltadas para um público infanto-juvenil), gostaria de destacar a obra-prima que é “Dançar tango em Porto Alegre”. [iii] Nele, um encontro amoroso, que ocorre no compartimento de um trem, entre um homem já maduro e precocemente envelhecido pelas agruras da vida (e que até já havia esquecido de seu sexo) e uma mulher desesperada, cujo marido se encontrava há muito tempo no leito, esperando a morte, é descrito com direito a uma cena de sexo anal... Mas em nenhum momento a narrativa cai na literatura barata e muito menos beira a pornografia, revelando-se como um momento de extrema dor e beleza em que o sexo surge com toda a sua força de Eros em oposição a Tanatos, em muito lembrando, como observa Laury Maciel em seu artigo “Um escritor em busca do reverso das coisas”[iv], o belíssimo filme “Houve uma vez um verão, dirigido por Roberto Mulligan, em que a mulher de um oficial que está na guerra, ao receber a notícia da morte do marido, entrega-se a um adolescente, iniciando-o sexualmente”. Em suma, grande literatura, digna do humanismo dos grandes escritores russos, tais como Tolstoi, Dostoiewski e Gogol, que muito certamente estão entre os favoritos de Sergio Faraco[v].
Marciano Lopes

[i] Tau Golin. A ideologia do gauchismo. 3 ed. Porto Alegre: Tchê, 1983.
[ii] Para saber mais sobre a representação da infância nos contos de Sergio Faraco, veja o artigo “O conto contemporâneo gaúcho: em tempos de desconstrução do conceito de infância”, de Flávia Brochetto Ramos e Marli Cristina Tasca, publicado na Revista Especulo.
[iii] Este conto foi publicado inicialmente em A dama do Bar Nevada e depois no livro homônimo, coletânea de contos que recebeu, da Academia Brasileira de Letras, o prêmio de melhor obra de ficção em 1998.
[iv] Artigo publicado no fascículo “Sergio Faraco”, no 11, da coleção Autores Gaúchos, Porto Alegre, Instituto Estadual do Livro, 1986, p. 14-17.
[v] Para saber mais sobre Sergio Faraco e sua obra, vá ao seguinte endereço: http://pessoal.portoweb.com.br/sergiofaraco/


Em Jaguarão, este livro você encontra  na Livraria Contexto, Av. Odilo Gonçalves, 547C 

quarta-feira, 28 de março de 2012

Sereia em pelo de esquilo.



Entre noite e madrugada, sorriu-lhe uma sereia. Mais tarde L. B. descobriu que Ela era um esquilo invertido, uma serelepe, cujos pelos úmidos, naquela noite sem lua, lembraram uma sereia. Ao sol, a cabeleira dela faria sombra fresca e perfumada. Mas isso ele desfrutou apenas de passagem.
Os irmãos Kid e Cid – suprafôlego do The Black Mouse ­– catavam os grãos de areia que há nas notas de Samba pa ti. E o tempo escorria santanamente. E a noite era só o brilho das estrelas esparramadas na lagoa. Ela sorriu; ele não estava bem, o sorriso pegou-lhe de raspão, roçou a pele e se foi; ademais, ela estava acompanhada de uma marta – este animal que está fora da árvore do mundo, esta fuinha.
A imagem de sereia era mais forte, e a marta patrocinava um buraco-negro por onde iam e vinham delinquir brasileiros e castelhanos. A benevolente Merin quase engasgava com tanta fumaça de cigarro - ele fumava, Ela fumava, eles fumavam, elas fumavam, isto e aquilo fumavam. Era bacana fumar, então. Tudo era uma fumaceira.
Algum relógio interno o empurrou para perto de uma janela. A brisa do lago e o ar fresco da noite entraram pelo nariz. Ele forçou a inalação para ver se acostumava, mas algo lhe esverdeou o olhar. Sentiu que baqueava, tateou o rebordo da janela – ocorreu-lhe saltar para fora, pra não fazer feio. Ele sabia que era dado a longos torpores e a fruir sonhos paradisíacos, mas não lhe agradava que outros o descobrissem, era discreto em suas pequenas neuroses, pois era preciso esmaecer o porte estapafúrdio. Foi quando viu pela segunda vez o sorriso dela, agora próximo. Ela estava ali, sozinha. Sorria e trazia um cigarro apagado entre os dedos. “Um esquilo com sua noz”. Tinha um crispar de mãos quase vegetal. Ele sacou fósforos do bolso da jeans. “Não, não, eu quero o fogo verdadeiro. Vamos sair, desse lugar.” Ela disse.
L. B. concluiu que ela não percebera que ele estava de capa caída. Tratou de se recompor. Porém, em seguida atualizou-se: aqui no Uruguai, não posso me descuidar. “Se ela estiver sendo assediada por um do tipo “no te oigo!”, não tem lero, tô ferrado.” Num átimo seu Quixote falou mais alto, envergonhou-se daquela fraqueza, e disse: Ok! Vamos!
Saíram tranqüilos pela porta, abandonaram a faixa de luz da entrada e em seguida estavam caminhando na estrada arenosa. Só/ébrio ele, mais uma vez, ponderou suas fraquezas; para onde levá-la, só o que tinha era um lugar na barraca cazumbi, onde algum bilontra da tripulação galiléia certamente já se recolhera; sabia do perigo que era a banda da lagoa. Desta vez não chegou a valer-se do espírito manchego que a tudo redimia; enquanto caminhavam, Ela finalmente acendeu o cigarro com o fogo essencial e ele foi arrebatado por outra realidade.
Tudo escureceu ao redor, tornou-se ainda mais escuro; quando a escuridão era completa, alguns relâmpagos ocres derramaram uma leve claridade. Com mil milhões de diabos, ali estava sua Yggdrasil, fosforescente até a medula, bem enraizada, bem copada! Furtiva, agora com sua cabeleira que fazia sombra, Ela, com gestos e feições diminutas, revoluteava em torno do Dragão; dizia-lhe coisas, porém sempre correndo e roendo uma pinha, de modo que o pobre Dragão, excitado, quase enroscava-se na própria cauda para tentar escutá-la. Quando a fera mal podia conter o fogo, que se derramava pela boca, Ela, em disparada, precipitava-se em direção à Águia. Ele a sentia no estômago e Ela já estava no peito, logo circundava o pescoço e como se fosse um gás, já estava diante da Águia a fustigar-lhe os ouvidos. Depois, movia-se, novamente para baixo, percorrendo seu caule, seus galhos, suas folhas e chegava às raízes, instigando e alevantando o Dragão. Era uma intrigalha projetada, minuciosamente arquitetada por Ela e que o confundia todo. Nada mais fez sentido, L. B. cofiou a penugem sob o queixo com a ponta dos dedos magros, depois estreitou o cordão colar da camiseta interior – apalpava-se para tentar reconhecer o gaúcho que era. Soprou nele um lirismo desesperado: Não sou nenhum sacristão, mas esta Teiniaguá me enfeitiçou. As ideias colidindo com os apetites. Yggdrasil, Águia, Dragão, Ratatoskr. Faltava-lhe o ar, ele sentou em uma pedra e dali viu um mundo acima de sua cabeça e outro abaixo da pedra, olhou ao redor e desfaleceu. Acordou com um borrifo de água mineral no rosto. Ela seguiu falando de maneira arquitetada, usando as palavras como se projetasse uma habitação impossível de ser concebida, ou pelo menos ele não conseguia se representar, mas estava aliviado. De alguma forma, Ela fizera uma mediação para a travessia – ah, agora sim L.B. entendia, Ela falara o tempo todo de uma ponte, que tanto une quanto separa.
Enfim, à frente de uma pequena casa, com uma única porta e uma única janela, à beira do principal acesso ao balneário, Ela disse: “Quero me entregar a ti, por que tu me pareces justo com quase toda a gente, e se eu não o fizer assim, tenho medo de me arrepender pelo resto da vida.” Estendeu-lhe os braços, disse uns sins e uns nãos. Quando ele a conheceu Ela estremeceu com medo de que, mais uma vez, ele não retornasse de sua pequena morte.
Já era a alba, ele vadiou um pouco pela orla do lago e depois encafuou-se na barraca galiléia.


Sérgio B. Christino

Clandestino - Gilberto Isquierdo e Said Baja

  Assim como o Said, milhares de palestinos tiveram de deixar seu país buscando refúgio em outros lugares do mundo. Radicado nesta fronteir...