domingo, 2 de dezembro de 2012

Por se partisse

Buscando Formas II -  Ana Izabel Bretanha

E essa angustia constante, cortante, rasgante qual faca que mata o que toca depois de torturar. Pois disso se tratam os amores, da tortura antes da morte. Não sou um pessimista, sou um apaixonado, tormentoso nos meus quereres eternos, sou o jovem Werther de meus dias, uma alma atormentada por fantasmas demais, que falam demais através da minha boca grande em demasia, carrego o mundo nos olhos, por isso o seu tamanho exagerado, levo o peso de cada coisa mal dita, maldita coisa que me faz caminhar devagar. Não tenho problemas com a pressa, as pontas de poesia que encontro nos bolsos cansados pesam demais, e me atrapalham o caminho, muito embora o indiquem, o pintem e inventem, é apenas isso, ou tudo isso, afinal.

E então te encontro, te reencontro, ali, como se sempre ali tivesse estado. Invades, então o porta retrato, instalas tuas fotos, tuas coisas no armário que carrego em mim, e me emprestas teus sonhos, imprimes teus dedos na minha pele, e o tormento de querer-te vai guiando os meus dias, fazendo com que meus pulmões que não se dão bem com o ar, voltem a respirar, e meus olhos grandes ganham um brilho que não recordavam ter, e me enches dessas coisas que só tu tens, e que ocupam os espaços vazios que eu nem sabia possuir.

Fecho os olhos e te encontro, muito embora não estivesses no teu lugar, no lugar que começastes a ocupar como num passe de mágica, como numa poção de amor, que eu tomei sem saber em um dos nossos porres noturnos( diurnos), isso não importa, realmente. E se não estás, bom, parece-me que eu também não estou, resta um escritor pela metade, sem talento, sem vontade de ter vontade, silencioso (sim, falo muito pouco, por mais chocante que isso seja). Este texto, não sei defini-lo, é uma carta para um senão. Uma carta para tua ausência, aquela que não quero, aquela que não posso, é uma carta colocada numa garrafa, pra todos os iguais a mim, todos os que encontram algo que não esperavam encontrar, pra todos os que te conheceram em outros rostos, pra todos que ouviram o teu riso de outras bocas, pra todos os que dividiram os teus sonhos em outros corpos.  

Nicolás Gonçalves

Texto publicado na coluna Gente Fronteiriça do jornal Fronteira Meridional do dia 21/11/12 


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