sábado, 8 de dezembro de 2012

A dura rotina de um jornaleiro



A Cândido Rodrigues, engraxate e jornaleiro

Naquele sábado, eu corria que nem um louco para aprontar o jornal. A impressão andava péssima, o mecânico custava a acertar o nível do rolo na chapa. Eu ainda tentava compor alguma matéria na tipografia. O pó, na caixa dos tipos, entranhava-se em minhas narinas e eu espirrava a toda hora, mal conseguindo respirar. Meus dedos estavam encardidos com a tinta preta, não podiam coçar o nariz nem espantar as moscas. E a caspa, no cabelo, comichava minha cabeça. Ali perto, debruçado na bancada, avental todo lambuzado, a careca brilhando sob o quebra-luz que pendia do teto, o velho Arcanjo resmungava por se encontrar atrasado na montagem da chapa.

Odores fortes de tintas e suores sobrepairavam no ar. Alguém entrou na oficina me procurando. Sobrancelhas e bigode cerrados e negros, um porte respeitável não fosse a boca desdentada, vestia uma camiseta de lã desbotada, calça xadrez, cordão amarrando a cintura, chinelos de dedos: era seu Cândido, o engraxate da praça, que se dispunha a distribuir o jornal em troca de algum a mais, reforçando a féria do dia.

Logo o prelo fazia trepidar o prédio inteiro, o rolo girando envolto no papel enquanto a chapa deslizava e voltava à posição inicial, depois de largar a folha maculada no aparador. Dobrávamos os jornais, acomodando-os dentro das bolsas. Era a primeira vez que seu Cândido fazia esse tipo de serviço. Competia-me indicar as casas em que devia proceder a entrega. Lá fora, raios e trovões, uma chuva torrencial. Era nossa obrigação atender os assinantes, apesar da precariedade dos guarda-chuvas como abrigo.

A sensação de desconforto se acentuava à medida que progredíamos nessa tarefa, ansiosos por trocar a roupa ensopada, beber um café quente, esquentar o corpo. Eu cantava o número de cada casa, seu Cândido passava o jornal amolecido pela umidade na soleira das portas e respondia com o nome do bicho. Ele tinha a sua ilusão de acertar e se despedir dos biscates. Era simplório, mas possuía um senso de humor incomum. Assim, eu ficava observando aquela criatura que parecia se derreter, gotas pingando do rosto vincado pelas rugas de um envelhecimento precoce, que nem o capuz do impermeável amarelo conseguia esconder.

Ruas encharcadas, o barro grudando nos pés pesados que chacoalhavam em lâminas de água. Sapos, grilos, um rádio tocando, a madrugada tinha seus ruídos. Alguma luz por detrás de um postigo encostado numa janela qualquer, por certo, um notívago assuntando entre paredes, no calor das cobertas.

- “Mil duzentos, cinquenta e cinco” - dizia eu apontando para o armazém do Armando Costa e me imaginava chegando mais cedo: a venda logo fecharia e o dono, aguardando o jornal, chamar-nos-ia para dentro, ofereceria mortadela fatiada e pedaços de pão. O apetite voraz, a saliva se esgotando na boca, o picante de uma pimenta inesperada, o copo de vinho para não engasgar, uma vontade danada de ficar por ali, sentado nos sacos de batata, esperando a chuva passar...  

- Gato” - berrava seu Cândido, à porta do armazém em que havia deixado o jornal, arrancando-me daquelas cismas.

José Alberto de Souza
poetadasaguasdoces.blogspot.com.br


Texto publicado na Coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional do dia 28/11/2012


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