quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Repercussões do 27 de Janeiro na Capital do Império



Nesta mesma coluna, em 07 de novembro passado,  o Professor Carlos Rizzon escreveu interessante artigo sobre os acontecimentos do 27 de janeiro e sua ligação com o Cerco a Paysandu. Por esses fatos, levam as duas cidades a alcunha de heroicas. Pondo de lado a questão das heroicidades incertas,  a Banda Oriental era ainda um estado em formação, entreverado entre os interesses de Buenos Aires e do Império Brasileiro e fortemente dividida entre Blancos e Colorados. Porém,  o que nos interessa hoje é lançar informações sobre os fatos acontecidos nesta fronteira e as repercussões no Império do Brasil. 

Reproduzimos a seguir, mantendo a grafia original, carta do correspondente em Pelotas do Diário do Rio de Janeiro, publicada em edição do dia 11 de fevereiro de 1865, fonte Biblioteca Nacional. O principal alvo do correspondente é o Presidente da Província, Sr  João Marcelino de Sousa Gonzaga, pelo descaso com a defesa da fronteira.


RIO GRANDE DO SUL _ Pelotas, 29 de Janeiro _ ( Carta do correspondente )  _ A falta de prestigio, e a pouca acção governativa da parte do presidente desta província vai produzindo fructos cada vez mais dolorosos. Há 15 dias o coronel Vargas, commandante da guarnição de Jaguarão communicou ao presidente a approximação de uma força oriental superior a 1.000 homens, e pedio armamento. O presidente sempre dubio, sempre indeciso, não lh'o mandou....

Pois bem, a vinda de uma força oriental sobre Jaguarão não foi um sonho daquelle veterano. 1.500 blancos ao mando de Basilio Munhoz sitiam Jaguarão, tendo já no dia 27 feito uma investida contra a cidade, que se defende com os seus poucos recursos!  O coronel Vargas ante-hontem, ás 3 horas da tarde, ainda se dirigio ao presidente só pedindo armamento e cartuxame, porque confia mais que tudo nos recursos de acção e companheiros. Mas, com o vagar do costume, se haviam embarcado 200 armas que lá foram encalhar no sangradouro, que inda hontem apenas tinha 4 palmos d'agoa. Às 11 horas da noite de hontem chegou um vapor de Jaguarão trazendo mais de 200 pessoas. São famílias que fogem espavoridas diante do terror de um assalto.  Esse mesmo vapor regressou levando 48 homens de infantaria, que mandou o presidente, quando alliás podia e devia mandar toda a infantaria de guarda nacional que aqui tem. Agora se procede à reunião da guarda nacional de cavallaria para seguir por terra em soccorro a Jaguarão. A creação de uma força de observação, bem montada e armada convenientemente na fronteira de Jaguarão era uma medida necessária, e ao alcance de todos.

O presidente a não comprehendeu, resistindo aos conselhos do general Caldwel, e até do barão do Serro Alegre que lhe mandou um próprio instando por essa providencia, única capaz de resguardar-nos de uma invasão, como a que soffre Jaguarão.

Mas o presidente entende ser elle o mais habilitado general, que para o rio Grande a todos quer convencer que não há gente, quando é certo que nossas fazendas estão cheias de homens, que as tropas de gados seguem-se umas às outras trazendo grande número de homens, como conductores, e quando não há quem não saiba que as reuniões da guarda nacional ordenadas pelo actual presidente são infelizes, porque tem elle tido o infortunio de não saber escolher os homens a quem deve confiá-las.

Agora mesmo em Jaguarão o tenente-coronel Balduino e o major Leandro reuniram, em dous dias, cerca de 600 homens, alli mesmo onde o presidente, compulsando os mappas das qualificações da guarda nacional, declarou que não havia mais o que reunir! É uma fatalidade para nós, e para o paiz, a cegueira do gabinete. O actual presidente não tem dado conta da tarefa que lhe foi confiada, e não sei como se poderá justificar o gabinete, que há muito deve ter sentido este estado de cousa.

Ahí vem chegando de todos os pontos da fronteira do Jaguarão velhos, mulheres e crianças, que se refugiam nesta cidade, abandonando as pressas seus estabelecimentos, que tem sido saqueados pelas partidas orientaes! Causa dó ver o estado de desespero em que estão!... Ora, quem é o primeiro responsavel por tantas desgraças, que teremos a lamentar? À ineptidão e inacção do Sr. Gonzaga tudo se deve, porque estando aqui nada previne, manda e desmanda, e ficamos sempre atrasados. É tan presidente que n' uma quadra destas não vizita um quartel, não assiste a uma revista!...Ninguém o procura, e sabe-se que há presidente, porque á sua porta estão duas ordenanças!

Quer creiam, quer não, fique sabendo que ainda hoje não há em Pelotas uma só arma! Alguns proprietários sabendo disto, mandaram comprar 300 armas, que existem no Rio Grande e que são amanhã esperadas. Não é provável que Pelotas seja atacada, mas tem em si uma população escrava, que sobe a 4.000 almas, e as forças orientaes, que invadiram a provincia vem proclamando a liberdade dos escravos.

30  DE JANEIRO._ Acabamos de saber que o general Caldwel expedio o 4º batalhão que se achava em Bagé, e mais duzentos homens de cavallaria para Jaguarão, e que para maior presteza da marcha fez montar a cavallo as praças daquele batalhão. Assim terá Jaguarão um auxilio seguro, que de cá não lhe iria tão cedo à vista das indecisões do Sr. Gonzaga. Sabemos por cartas de Bajé de pessoa fidedigna que no dia 23 acampou no passo do Arriura no Rio Negro uma outra força oriental de 1.400 homens. Estão a poucas léguas de distancia de Bagé; mas lá não irão porque o general Caldwell de chegada áquelle ponto, tratou logo de pô-lo em estado de repellir qualquer assalto activando as reuniões da guarda nacional.

31 DE JANEIRO._ Não temos noticias seguras do estado de Jaguarão. O presidente acaba de recusar o alistamento de alguns voluntários da pátria porque diz elle não há ainda corpos organisados!... Assim também não aceitou a offerta de serviços de mais de 100 alemães que aqui residem, e não aceitou o concurso de alguns orientaes conhecidos que se offereceram a marchar! Não entendemos isto. 

Jorge Passos

Texto publicado na coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional do dia 04/12/2012 


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