terça-feira, 15 de janeiro de 2013

De Musas y Bares

O insólito abrigou-se por aqui, caverna mítica do surrealismo  


Lá pelo inicio de 2011 recebi encomenda para a comemoração do segundo aniversário do Poesia no Bar que iria acontecer em junho daquele ano. 

Infelizmente não pertenço ao seleto grupo de afortunados que tem ligação direta com as vozes dos escritores do Além, que ditam ao ouvido do felizardo poemas, escritos variados, contos e até poemetos genialmente musicáveis, exigindo-se apenas uma caligrafia ágil. Tem-se assim, para gáudio de nossa literatura, autores que nos brindam com abundância seus livros psicografados.

Ao contrário, meus contatos com as musas, fonte de toda a inspiração segundo os gregos, são oriundos de muito trabalho mental e físico. Às vezes, acontece-me de encontrá-las num banho de rio, ou numa noite mal dormida, raras vezes foi produto de sonho, geralmente surgem enquanto faço longas caminhadas olhando para o chão. Contra todos os meus prognósticos, foi numa noite de temporal que tive a visão. Estava deitado e transportaram-me aos abrigos dos nossos antepassados. Creio que não cheguei a levitar, apesar da nítida sensação de sentir meu corpo planando suavemente no espaço.  A intempérie e seus acessórios, raios, relâmpagos, trovoadas, ventanias e trombas d água, compuseram o cenário aterrorizador da natureza e a proteção que uma caverna poderia proporcionar, mesmo com todos os demônios que pudessem viver lá muito dentro dela. 

Então, pude visualizar a cena. Alguns cromagnons sentados em torno do fogo beliscavam um picadinho de mamute e comungavam de uma beberagem ancestral enquanto narravam as aventuras do dia. Consigno a Calíope, a musa que se ocupa da poesia épica, esta dádiva. A imagem do bar primevo, da caverna fundamental, foi a chave que abriu a porta da poesia Ode aos Bares. Convenientemente, como de costume, alertou-me nosso filósofo e primeiro imediato sobre o bom convívio com as filhas de Mnemósine, invocando a frase do poeta Ruben Dario: Cuando uma musa te dé un hijo, queden las otras ocho encintas.

Dentre as cavernas míticas que ocupam a nossa memória, a memória da tripulação Cazumbi do Galileu, encontra-se o Bar do Patiño. Numa esquina a duas quadras da Estação Rio Branco, o bar era o ponto dos bagageiros à espera do trem que partia altas horas da noite ou dos que chegavam pela madrugada. Nós o descobrimos não sei como. Coisas do Venerável. Íamos a pé, atravessando a ponte, passadas mais ou menos largas, acompanhando os dormentes dos trilhos, feito romeiros, mais que pagando promessas, fazendo preces, raramente atendidas. Impelia-nos a fé na arte como caminho para a redenção. A redenção quase sempre atendia pelo nome de alguma mulher, e havia tantas para outros tantos, que recorrentemente nos ignorava.

Éramos inclusivos. Acolhíamos os desprezados, os que não tinham turma. Os que falavam às paredes e não recebiam resposta.

No bar do Patiño, um deles era o Perneta. Sua face não me era estranha. Pertencia à ala dos testas altas. Atuou no papel de Julio II em Agonia e Êxtase, filme sobre a vida de Michelangelo, quando compunha a figura de pai e líder de todos os cristãos na integridade de todos os membros. Foi conhecido como o Papa Guerreiro. Um dos nossos só o relembra na condição de um vago espectro. O Venerável afirma que era um ex guarda barreiras que foi abandonado pela noiva, uma morocha do Poblado Uruguay. A perna teria sido perdida numa trágica caçada de capincho. Contam que tempos depois, recuperado do acidente, por um par de semanas andou exibindo com orgulho uma flamante, de madeira, mandada fazer em um carpinteiro de Fraile Muerto, conhecido por suas habilidades em próteses campeiras.  Depois voltou à muleta. A um seu amigo, o Capenga, sentara-lhe tão bem a perna de reposição, que resolvera alugá-la a preço módico. Quando nos pressentia chegar, num portunhol bem falado, se jactava com petulância do seu melhor destino: “agora es distinto, llegó mi barra.” Já com o  violão em punho, muleta ao lado, abria cantando a única música que nos ficou na lembrança, talvez pela dramaticidade que expressava, fazendo o compasso com a perna que ainda a tinha natural: “miña mulher é uma brasa, cuando eu chego em casa, dá-se logo uma explosão..”

Miguel Angel Patiño Mederos,  figura impar e fazedor de histórias
O bar agora lhe serve de moradia

O Patiño, atrás do balcão já se entusiasmava desafiando alguém para um exercício de pugilato, com luvas de boxe e tudo. Armado rapidamente o ringue, contra o boxeador e manager de longos cabelos louros adornados por chapéu de plástico preto, e que morava ali por perto do Club Artigas, desenvolvia-se o entrelace conflitivo de ágeis punhos em jabs, cruzados e diretos.   Daqui a pouco, em menos tempo que durava um cálice de canha, um dos lutadores, o Mão de Luva, desvencilhando-se dos jogadores de bilhar, já aparecia sentado ao piano na sala contígua (era um piano de cauda e o mistério é como havia sido introduzido, devido ao tamanho descomunal), com os dedos livres, tascando uma cumparsita ou balalaika cumbiada, enquanto anões, magos, gaúchos, palhaços,índios, ciganas, seres de todo o tipo conhecido ou por conhecer, entre fardos de açúcar, malas de erva mate, damajuanas de canha, pacotes de massa, rapadura e tijolinhos, bombons garoto e o que mais pudesse ser comercializado, belzebeavam, formando aquela troupe que introduziu o Dadaísmo nos limites desta fronteira. 

Jorge Passos

Texto publicado na coluna Gente Fronteiriça do jornal Fronteira Meridional do dia 09/01/2013

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