segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Identidade ( final)

          Somos o resultado dessa matriz. Mescla de três raças. Ainda quando aparentamos ser uma apenas. Não há um cavalo no alpendre nos esperando agora. Não necessariamente. Ainda que alguns de nós alardeiem tal feito como se fosse imprescindível. Os soldados-peões não herdaram a terra. Os filhos deles não herdaram a terra. Alguns trabalham em chão alheio. Outros andam por aí, cercados entre muros e alambrados. Outros - a maioria - vieram para as cidades. Trouxeram junto o sangue que os justifica, bem mais do que a posse das estâncias ou os aperos no galpão. Não é mais gaúcho – nem menos – aquele que está em cima do seu mouro, demonstrando suas pilchas novas em alguma data festiva, do que aquele que está agora em alguma vila tentando sobreviver à luta diária por um prato de comida. Nenhum deles é mais, nem menos. O que vale é o sentimento que carregam como símbolo do tempo que passou. Da história que representam.

E o tempo, esse deus soberbo e indiferente, realmente passou.  Sobrevieram as regras e a diferenciação se fez sentir. Aqui a última flor do Lácio na língua de Camões. Ali - não mais que ali - a língua daquele cavaleiro que enfrentava moinhos nas sendas da Andaluzia. Porém, de uma forma misteriosa, ainda nos soam naturais tantas palavras e costumes antigos. Por essa razão, a seiva índia de um mate nos aquece tanto o espírito. Rastros invisíveis que as legislações não foram capazes de extinguir. Por essa razão, talvez, uma milonga ou um tango parece ter um eco dentro da nossa alma, assim como se houvéssemos já escutado a melodia em outra ocasião, ainda que seja a primeira vez que a ouvimos. E, talvez, a tenhamos escutado (porque não?), em algum cerco a um fortim de fronteira; em alguma noite de ronda nos varzedos sulinos; em alguma charla sob a sombra de uma figueira centenária.

As fronteiras políticas não coincidem com as fronteiras geográficas ou sociais. Para o resto do planeta somos gaúchos, ou gauchos; esse tipo único no mundo, nascido nas correrias de três séculos. Mestiços somos. Três raças vivem em nós. E essa é a nossa identidade; não a da roupa que vestimos, mas sim a que se encontra sob a pele. E por essa e tantas outras razões, é que não precisamos que outros entendam porque gostamos de ritmos tão nostálgicos ou de uma bebida tão amarga. Somos assim. Nem melhores, nem piores. Apenas assim. Essa é a nossa identidade.
                                                                            
 Martim César Gonçalves


Publicado na coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional em 24/07/13

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