terça-feira, 29 de maio de 2012

De Fronte à Juventude

      
A Fonte da Juventude - Cranach, O Velho
Meus quarenta anos se aproximavam com a velocidade de um supersônico, mas o som, ao contrário, vinha à frente, anunciando a chegada da crise; a crise dentro da crise. O chumbo emprestava sua cor ao céu e seu peso a mim naquela tarde. Iludido, imaginando algum poder de influência sobre meu eu em declínio, fiz um poema (1)  que sobreviveu apenas quinze minutos; o malogro em cinzas negras.

No bairro em que eu morava as ruas homenageavam todos os conquistadores da América espanhola; “La Conquista” era o seu nome. A deferência estampada na placa de minha rua nada me dizia de especial, em que pese o nome também remeter-nos ao mundo animal, minha paixão indisfarçada. Dobrando a esquina, ora cabisbaixo, ora levantando a cabeça para respirar fundo, achei curioso que o nome da minha rua estivesse afixado na parede de uma casa em azulejos portugueses. “Ponce de Leon”. “Quem foi Ponce de Leon”?

Livros de história e literatura deram-me a resposta: eu era Ponce de Leon. Academias de ginástica, namoradinhas com metade de minha idade, afrodisíacos, vitaminas; soldados de um exército pretensamente imbatível; guerreiros hunos, mongóis, falange macedônica, mercenários. Tribo cooptada ao sabor do desespero.

Ponce de León, num quadro anónimo do ano 1513.
Após três meses, um a um, na ordem inversa em que contratados, foram dispensados de minhas fileiras. As jovens mulheres, meu primeiro recurso, as deixei por último; o general fora vencido, vitimado pelo fogo amigo. Novamente deprimido, agora sob o peso de um poderoso fracasso, revisitei os livros de história e literatura, com seriedade e sem pudor. Somente algo mágico haveria de me salvar. Em alguma floresta América adentro estava o que eu procurava. Reuni tudo o que eu precisava e parti para uma aventura que duraria dois meses.


Fiquei eufórico quando descobri o grande engano de Ponce de Leon. O segredo o acompanhou por todo o tempo sem que ele percebesse. Às vezes a proximidade do objeto nos embaça a visão e enfraquece o discernimento. Mas eu percebi; sim, eu ouvi quem tinha que ser ouvido; não os matei, não os aniquilei. Valorizei-os, respeitei-os e obtive o que procurava. Os índios da floresta me mostraram a verdadeira fonte da juventude: as ervas da mata.

Não ousei fazer o experimento longe de casa. Em vinte e quatro horas estava recuperado da longa viagem. Outras vinte e quatro horas e o coquetel estava pronto. O único “porém” era o último pio da coruja, momento em que deveria acrescentar o penúltimo ingrediente. Embora vivesse na cidade, havia corujas à noite, mas silenciosas que era o diabo. Quando resolveram se manifestar, o fizeram duas quase ao mesmo tempo. Era uma bobagem pensar nisso. Daria certo. Tinha certeza.

Conforme o ensinado pelos índios, bebi o preparado de um só gole (ao contrário de outras mal-sucedidas receitas que prescreviam provar por três vezes) e fui dormir. Às cinco horas da manhã levantei e senti um mal-estar; diferente do que sentia desde o início da crise, mas familiar. O mal-estar evoluiu para o pânico, suor frio, tremor nas mãos. Ainda assim, familiar. As férias e a licença-prêmio acabaram; o trabalho me esperava após sessenta dias.

Na repartição, meus colegas desejaram-me boas-vindas e quiseram saber das novidades. Como um náufrago que se agarra a um objeto qualquer que flutue e o sustente, preservei minhas energias e pouco falei. Olhava pela janela com insistência, como que estudando um roteiro para fuga.

O primeiro dia de trabalho coincidiu com a reunião mensal, realizada dia cinco de cada mês. Quando todos se dirigiram à sala, peguei minha pasta, desviei o caminho e corri para o elevador.

À noite, em casa, convidei uma ex-namorada para jartarmos e passar a noite juntos. Era uma amiga especial, que às vezes também me procurava. Mas, ao contrário do que supunha, sua presença deixou-me ainda mais inseguro, situação agravada por ser a fuga impossível. Convidei-a para entrar, embaraçado, sem conseguir sustentar o olhar. O calor subia-me ao rosto; faltava-me entre as pernas. Disfarçava o mal-estar mexendo-me muito e levantando-me a toda hora para mostrar-lhe algo.

Decidi apressar nossa ida para o quarto. Lá haveria pouca luz; seria menos observado. Porém, vi-me insensível às carícias e julguei não poder chegar à ereção. Não querendo que ela percebesse minha dificuldade, fui ao banheiro e, sentindo-me menos pressionado, consegui equipar-me.

De volta ao quarto, achei melhor não prolongar as preliminares e fomos direto ao ato em si. Após vários orgasmos dela, eu, banhado de suor, insistia com o corpo, mas vagava em pensamentos, convencido de que o gozo (que não veio) não viria. “Quase matou-me”, diria-me mais tarde. Pedi que parasse de me chamar de “meu garanhão” e ela foi embora feliz, sem se importar com a forma indelicada, seca, com que a ela me dirigi.

O dia seguinte era um sábado. Fui à casa de meu pai, a casa onde passei toda a minha infância, para ajudá-lo a limpar e pôr em ordem o velho porão. Durante o caminho, logo após passado o efeito que o frescor da manhã causa às pessoas, minhas mãos começaram a ficar suadas e a garganta levemente ressecada. No portão, senti-me pequenininho, como que encolhido, com medo de ser visto pelos vizinhos, os mesmos de tantos anos atrás; não sabia se entrava, se me anunciava, se recuava. Meu pai apareceu à janela e mandou-me entrar.

Apertei sua mão sem olhar em seus olhos e fui direto ao porão. Dispensei sua ajuda, mas ele insistiu em supervisionar os trabalhos. Desde criança, quando me dizia “vamos fazer isso, vamos fazer aquilo”, eu já sabia que sua participação se limitaria a dar ordens e fiscalizar. Durante três horas permaneci calado, acuado, temeroso de não estar fazendo o trabalho ao gosto de meu pai. Terminada a tarefa, despedi-me, recusando o convite para jantar. Em casa, exausto, derrotado, amargurado, abri uma garrafa de uísque doze anos, com o que compreendi o que havia acontecido. Definitivamente era preciso procurar ajuda. Liguei para quem achei que nunca mais veria, após aquele último encontro, cinco anos antes: minha ex-terapeuta. No dia e hora marcados, cumprimentei-a e fui logo deitando no divã.

- Sente-se, por favor; não estamos em tratamento. – disse ela com delicadeza.
- Oh, desculpe, a força do hábito. Além disso, receio não poder falar assim, de frente.
- E por quê?
- Bem, – comecei, respirando fundo - vou direto ao assunto. Nossos doze anos de trabalho se perderam, doutora. Voltei a ser o que era antes da terapia. Voltei a ser o jovem que fui.

Edson Júlio Martins

(1) O poema ainda existe na memória de um amigo, para quem recitei por telefone antes de destruí-lo. As fortes emoções por que passei (o leitor poderá atestá-lo) fizeram com que o esquecesse.   

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