quinta-feira, 8 de julho de 2010

Marco Aurélio Vasconcellos - Canto dos Pássaros


Há cantores que estão além de regionalismos, tradições, movimentos, estilos. Vozes que entram em sintonia com a nossa alma. Manifestações de algo que não sabemos o que é, mas reconhecemos. Como o canto dos pássaros. Soam em nossa alma e nos acompanham desde que o tempo é tempo. Marco Aurélio Vasconcellos é um desses pássaros. Mas é claro, há que se deter para escutá-lo. Não é para ouvidos repletos de buzinas ou máquinas de escritório. Ou é. Desde que tenhamos essa sensibilidade interiorana que todos trazemos, mesmo que seja dos nossos pais ou avós. E se – em apenas uma hora das nossas vidas – silenciarmos para ouvi-lo, entenderemos o mundo que está nos livros de Cyro Martins ou de Aldyr Schlee, e que chamamos de campanha real. A do gaúcho a pé. A de Don Sejanes. A dos Quixotes pampeanos que jogam osso com bombacha e alpargata. E a dos que andam de chinelo de dedo rigoreando os frios de inverno em épocas de semeadura, ou aguentando os mormaços de verão em comparsas de esquila, esporeando a pobreza. E a dos joões ninguém de fundo de campo, posteiros de estâncias cujos patrões estão nas capitais: ‘homens sofridos que trabalham o dia inteiro, tão verdadeiros que jamais negam a mão’. E os Don Verídicos do uruguaio Juceca: ‘gauchos’ engraçados que tomam, no final das tardes, as suas puras em algum bolicho de beira-estrada.
E foi esse mundo, real e que está logo ali, um pouco além das cidades, que se ouviu na Casa de Cultura Mario Quintana, no teatro Bruno Kieffer, em Porto Alegre. Em uma sala surpreendentemente repleta. E o que não surpreendeu foi ver, após a apresentação, a emoção de muitas pessoas que deram testemunhos do quanto aquelas canções os fizeram viajar no tempo e no espaço. Por tudo isso, a primeira estrofe da primeira canção, explica o que não necessita explicação:


É muito antigo meu canto
Bem mais antigo que eu
Pois todo verso que planto
Veio em mim... mas não é meu!

Martim César Gonçalves
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