quarta-feira, 28 de julho de 2010

A realidade trivial e a dimensão divina

Kundera está correto, tu estás, eu estou e salve os perros e as holandesas!

O idílio continua tônico entre homem/animal/mulher; desejado por todos está na dimensão divina e dicotomizado por as trivialidades cotidianas do bem/mal; feio/bonito; certo/errado, do ir/vir; drama/comédia; conflito/admiração, até do ser ou não ser.

Adélia Prado, poeta mineira de Divinópolis, promove a díade no texto “Casamento”, e eu uma homenagem aos pares perfeitos:

Há mulheres que dizem:

Meu marido, se quiser pescar, pesque,

mas que limpe os peixes.

Eu não. a qualquer hora da noite me levanto,

ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.

É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,

de vez em quando os cotovelos se esbarram,

ele fala coisas como 'este foi difícil'

'prateou no ar dando rabanadas'

e faz o gesto com a mão.

O silêncio de quando nos vimos a primeira vez

atravessa a cozinha como um rio profundo.

Por fim, os peixes na travessa,

vamos dormir.

Coisas prateadas espocam:

somos noivo e noiva.

Adélia Prado

(In: Poesia Reunida, Siciliano, 1991:252)

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