sábado, 28 de janeiro de 2012

Coluna do Juremir: Nei e o Fórum

Nei Lisboa no III Canto do Jaguar - Jaguarão - 2010 

Fomos ver Nei Lisboa no Teatro Renascença. Já faz parte das características de Porto Alegre como o calorão de janeiro e fevereiro, o friozão de agosto, as flautas entre colorados e gremistas, as brigas do Cpers com os governos e o muro do Guaíba. Nei Lisboa é dez. Como os vinhos gaúchos, está cada vez melhor, embora bom mesmo é um bom vinho francês. Está cada vez melhor por ser o mesmo. Tem humor, ironia, sofisticação e simplicidade. Não é para poucos. Ver Nei Lisboa em tempos de Fórum Social Temático, cria do Fórum Social Mundial, faz pensar no slogan do FSM, só que como pergunta levemente modificada: um outro mundo musical é realmente possível?

Ao contrário do que alguns pensam, sou chinelo. Gosto de tudo, até do que não gosto, depende do dia. Gostar não me impede de criticar. A maior bobagem para mim é a frase "respeita o gosto dos outros". Desrespeitar é proibir, chamar a Polícia, sair atirando. Criticar é do jogo. Vejo no funk, no pagode e até no sertanejo universitário expressões de vitalidade. Gente querendo viver intensa e facilmente. Talvez facilmente demais. Há em Michel Teló esse vitalismo da carne, essa pulsão do corpo, esse apelo aos instintos do qual quase ninguém escapa. Mas isso poderia acontecer de outra maneira? Todo gosto é relativo? É lícito pensar na existência de gostos mais ou menos apurados? É preconceituoso pensar em levar o fã de Michel Teló a gostar de Nei Lisboa? Ou, como diz aquela letra altamente poética que chegou a andar na boca de muita gente não faz muito, "cada um no seu quadrado?".

Nei Lisboa é o D''Alessandro da música do Rio Grande do Sul. E D''Alessandro é o melhor jogador do Inter desde Falcão e Carpegiani. Nei fez a escolha do verdadeiro artista: a qualidade acima da grana e da fama. Poderia estar rico se tivesse aderido à ascensão da chinelagem. Oportunidades não lhe faltaram. Poderia, por exemplo, ter feito músicas melosas para folhetins de televisão. Há algum tempo, um compositor admitiu que alguém precisa fazer o "serviço sujo". Por que jogador de futebol não faz gol e pede música de Nei Lisboa? Essa é pergunta muita séria? Ela pode ser refeita assim: como é formado o nosso imaginário musical? Chato? Pensar é chato, perguntar é chato, responder é muito mais chato. Críticos existem para chatear os outros com suas questões chatas. Todo crítico é mala. Eu sou mala. Mala e chinelo. Só que mala e chinelo com surtos questionadores. Pior não há.

Quando ouço Nei Lisboa, penso: é possível fazer música popular e inteligente. Mas daria para usar embaixo do edredom no "BBB12"? Tenho a impressão que não. Aí Nei Lisboa é um fracasso. Não atingiu esse nível de criatividade. Não é fácil fazer música capaz de cair no gosto dos participantes do programa mais vagabundo da história da televisão brasileira. Até a revista Oia, sempre tão populista, admitiu que se trata de um caso de escola de baixaria. Por isso, fui ver o show do Nei Lisboa. Para me limpar. Sair purificado. Uma mala nova.


Juremir Machado da Silva 
juremir@correiodopovo.com.br

Coluna publicada no Correio do Povo em 27/01/2012 - 

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