quinta-feira, 19 de maio de 2011

UMA TERRA SÓ. RUAS QUE SÃO LIVROS


E nem é rua, é travessa.

Contudo está de festa este empedrado que fica do lado do Mercado. Parece até dia de inauguração da ponte. Onde vieram os trilhos de um lado se juntando com os trilhos do outro lado e, por cima dessa enorme ponte como de um quarto de légua, ligou-se finalmente o Brasil e o Uruguay. 

Já vejo por aqui o pessoal de fatiota, fraque, até um foguista da AFE. Anda por aqui o ensimesmado da Estação Rio Branco, dizendo calado as histórias de todos os trens que não andou. As mulheres vieram,vieram os turcos. A irmã que vivia quase solita no campo e dormia com a terneira no galpão e dividia o que não tinha com o irmão contrabandista. O anão de circo, com gana e medo do pai e do circo. E foram se vindo. O Domingos Nanico com luto no braço pela falecida e a falecida.

Como se tivesse vindo pelos dormentes enterrados onde já não andam mais os carromotores, apareceu o José Jacinto, o Pochocha, carregando a Marita pelo braço e ainda com dinheiro na bota. Até o Pardito, se veio de bote, bote em que o pai trabalhou passando gente pra lá e pra cá antes da obra da ponte. E morreu de desgosto porque o que faria depois da ponte?

No costado do Mercado, vejo o Pichón, filho de uma puta. Está de ressaca ainda. Espero que não faça o mesmo fiasco daquele jogo na granja do Uruguay. E mais prum lado, vejo as camisas tricolores do Mauá vindas da Casa London Paris de Montevidéu. Estão aqui com seus donos.

Era junção. Reencontro. Regozijo.

Ciriaco casando com Joana.
Foto Gilberto Perin

Girando, no descontrole, girando, andando, como uma tora podre, um casacão meio afundado, vinha pelo rio o corpo do Paco, um Paco qualquer. Enroscado no redemoinho das águas crescidas do Jaguarão. Ninguém quis ou se importou saber dele, mas ele veio assim mesmo.

Presentes, o  Gaguinho da ferragem e o Alarcón. Protagonistas da primeira e única verdadeira luta de box em Jaguarão. O ringue ficava nos fundos de uma alfaiataria perto da praça. 
E o Ravenal, o peão de estância,  também anda por aqui, como se tivesse no cine Apollo, assombrado vendo seu primeiro filme.E o guri que ia se arranchar no quartel e foi enfeitiçado pela china e dele nunca mais se soube.

Todos vieram. Compareceram . Inclusive outros que não eram deste livro. Don Frutos, Verdina, Don Sejanes, o zagueiro uruguaio que nunca perdeu pênalti. Todos. 
 
Se houve dificuldade para pôr esse nome na Travessa? Houve. Como é regra , o desiderato de toda oposição é ser do contra. E foram. Pediram vistas e revistas ao projeto. Pesaram, sopesaram. Mediram, olharam , por dentro , por fora, por cima, por baixo. Examinaram, tiraram febre, auscultaram. Era coisa de cultura. de Letras. Com essa universidade que tem por aqui agora o assunto é esse. Parece coisa nova, nunca antes vista. Também faça-se justiça, é gente ocupada. Não tem tempo para essas iluminuras. Porém, como são gente muy conscienciosa, muy zeladora de seu ofício, depois de tudo avaliado, calibrado e repesado, aprovaram. Mas, que se cuidasse dos buracos e orifícios da cidade também, exigiram.

Eu? Quem sou eu? 
Eu sou o chato que traduzia e não sabia dançar boleros. Quem sabe, me aparece por aqui a Maria Helena.   

Jorge Passos
Texto da coluna Gente Fronteiriça
Publicado no Jornal Fronteira Meridional - 12/05/2011


Ocorreu nesta segunda-feira (16.05.2011), na Câmara dos Vereadores de Jaguarão, a aprovação do projeto que intitula a rua ao lado do Mercado Público de Jaguarão - Uma terra só. Merecida homenagem ao escritor Aldyr Garcia Schlee e sua obra.

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