terça-feira, 12 de junho de 2012

Raul: um fora-da-lei



Dia desses ouvi falar do filme/documentário sobre Raul Seixas, O início o fim e o meio”. Ainda não chegou por aqui. Por isso ainda não assisti. Mas, por tudo que li, é muito bom. Imperdível, eu diria.

Depois, outro dia, lembrei de uma entrevista do Raul para o Kid Vinyl. E essa sim, eu ouvi. Nela, Raul Seixas dizia: “tenho certeza de que não vou morrer”.E por isso resolvi escrever...Um dia a terra parou e Raul fingiu que não viu e seguiu. O tempo passou e Raul ficou. Vinte anos atrás, ele deu adeus, embarcou num disco voador e voou.

Raul sempre leu muito. Começou explorando os livros da biblioteca de seu pai, onde ficava horas viajando por galáxias e estrelas distantes, nos livros de astronomia. Depois de sair de Salvador e passar fome na cidade maravilhosa, Raul resolveu fazer terapia e cursar filosofia. Só mais tarde é que foi viver de cantoria.

Enquanto viveu, Raul se recusou, terminantemente, a aceitar o determinismo nesta vida: “Eu que não me sento/No trono de um apartamento/Com a boca escancarada/Cheia de dentes/Esperando a morte chegar...”

Para ele, o hoje era apenas um furo no futuro, por onde o passado começava a jorrar. Viveu como quis. Morreu quando cansou deste lugar onde jamais conseguiu se encontrar.

Dez mil anos atrás, Raul havia começado a sonhar em ser cantor e compositor. Mas para ele – poeta - a passagem do tempo parece não importar tanto assim. Se tempo presente ou futuro para ele tanto faz quanto fez. E assim ele se fez.

Tempos depois ele declarava: “Eu sou tão bom ator que me finjo de poeta e profeta e todo mundo acredita.”

Se hoje eu sou estrela, amanhã já se apagou/Se hoje eu te odeio, amanhã lhe tenho amor.” Era chato chegar a um objetivo num instante. Ele se transmutava a todo instante. E o ritmo que isso acontecia era tão alucinante, era tão estonteante, que Raul se tornou uma metamorfose ambulante.

Mas com o passar do tempo ficou difícil ordenar o pensamento. Seu tempo era ao mesmo tempo perto e distante. Neste instante o álcool entra em sua vida. Uma anestesia para a monotonia do dia-a-dia.

No final já estava cansado de viver drogado. Mas já estava escravizado. Quando quis dizer não, o álcool e a droga já o haviam jogado ao chão. Então disse:: “Eu não morri de overdose; eu morri foi de tédio” O diretor do documentário “O início, o fim e o meio”, Walter Carvalho, disse que Raul morreu de amor.

Do passado me esqueci / No presente me perdi / Se chamarem diga que eu saí.” Um dia Raul disse: “para o futuro não estou nem aí.” O Maluco vivia a esmo. Fugia de si mesmo. Não que fosse um frustrado ou fracassado, apenas tinha um universo inteiro a rodar em seu costado.

Outro dia disse: “O universo me espanta e não posso imaginar que esse relógio exista e não tenha relojoeiro”.Raul nunca conseguiu ficar sozinho. Ao mesmo tempo, nunca conseguiu ficar com ninguém por muito tempo: “Como marido, sou uma merda total. Como compositor e cantor, sou o homem ideal.”

Um turbilhão de ideias. O copo sempre à mão. Uma profusão de imagens e possivelmente uma confusão na mente. Mas antes do álcool lhe embotar totalmente, sua genialidade se fez presente. Raul deixou sua semente. “Eu não sou louco, é o mundo que não entende minha lucidez”.

Lúcido o bastante para não entrar em toda e qualquer luta. Com onze anos de idade já desconfiava da verdade absoluta: “Tem gente que passa a vida inteira / Travando a inútil luta com os galhos / Sem saber que é lá no tronco /Que está o coringa do baralho.”

Tal qual um fora-da-lei, Raul viveu de lutar contra o rei. Mas o mundo é um moinho e Raul morreu sozinho. E assim é a vida, o caminho do acaso é o azar ou a sorte. E o caminho da vida, seja no início no fim ou no meio, é a morte.

Antes da morte, Raul nos deixa um mote: “Jogue as cartas, leia a minha sorte / Tanto faz a vida como a morte / O pior de tudo eu já passei.”

Mas Raul não morreu. E isso sabia ele e sei eu.

Enilton Grill

Texto publicado na Coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional do dia 30/05/2012
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