segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Goodbye Lux Baker

Foto Arte  G. Steps
So long boy you can take my place
got my papers
I've got my pay
So pack my bags and I'll be on my way
to yellow river ...        (...)
Got no time for explanation
got no time to lose
Tomorrow night you'll find me
Sleeping underneath the moon
at yellow river
(Yellow River – 1970, Jeff Christie)



Alguma anêmona em mim intuía os mosaicos desde o Cine Rio Branco para mais além da Ponte; intuída a direção, meu estômago a seguiu como se fosse um balão ao vento – pronto e fugidio. A noite estrelada e as luzes aqui e ali, nos postes recortavam o céu escuro, que meus olhos dessemelhantes enxergavam num mar espesso.

Adiante deparei com a tripulação cazumbi do Galileu que avançava em uma travessia galharda – sempre tomavam o padre pelo sino, sempre duvidando de toda certeza. Localizei dentre eles um único amigo; não um amigo, mas um confrade, um companheiro de idéias. Acompanhei-os. Vi a língua da voz aguda, esquisita, do Gordo. O Gordo era estridente! A língua de fogo, em chama retorcida, subia e eu menos escutava do que via o discurso físico que ela pretendia. Escrito em letras miúdas ascendentes sobre o negro firmamento. Falava de pressão sobre um meio líquido – falava de um tipo de nome Pascoal ou Pascale. Meus pés tateavam musicalmente o chão; um mais de lado do que o outro, evocando aquela minha assimetria diagonal. Elevei, de meu peito para minha cabeça, uma névoa gelada e verde, quem sabe me refrescasse e poderia coordenar. Seguia os passos dos demais em movimento ciliar, não tinha firmeza em parte alguma. Empurrei minha mão para um lado e foi-se o braço todo, chocando opaco contra a amurada. Meus pés continuavam tateando; apuraram um pouco o ritmo, vi as costas da japona engalonada do Venerável crescer em minha direção. Falei qualquer coisa por falar; ele não ouviu, ninguém ouviu, nem eu mesmo ouvi, só percebi um fiapo de voz mecanizada que saiu soprada de meus lábios fazendo cócegas - uma voz balbuciante. 

O Gordo continuava concitando as massas líquidas, mas então os termos se engrolaram e, sem sentido, passaram a fermentar dentro de mim. Um seio pantanoso e quente passara a ferver, a depurar-se e, acima dele, uma revoada de borboletas, libélulas e mariposas faziam cócegas em meu tórax; pequenas flechas escuras saltavam de um motor de alta ciclagem em meu peito e seguiam a linha de meus braços  e pernas. O Gordo continuava: toda pressão exercida sobre o centro de  uma massa... Até que, como um bálsamo peruviano, a névoa verde voltou-se extrusiva e conduziu manu militari a depuração; e as borboletas e as libélulas e as mariposas passaram pela minha garganta, pela minha língua e descarregaram-se num vôo suave, irisado e infinito.

Vencida a ponte, as luzes eram mais raras. A escuridão, o breu, somente uma vez por outra era interrompido. Agora eu era menor; era um ponto em meio à névoa fria rodeada pelo negrumoso circundante. Só tinha um amigo ao meu lado – tão fraco quanto eu. A tripulação do Galileu dispersara, suas caras ficaram gravadas na cera mnemônica por uns poucos segundos. Pressenti o perigo. O rumo estava certo, a anêmona continuava a indicar, porém nossa equipagem era insignificante para enfrentar qualquer risco. E cruzar alguns trechos da Odilo era sempre arriscado, tais lugares eram propícios aos cães que assomam de dentro. Que tomam forma do braço ou da mão e atacam o resto do corpo - atacam as nádegas, quando se está em disparada ou atacam o joelho para imobilizar. 

De todos, o pior é o Cão dos Políticos, que avança com a fauce vermelha escorrendo saliva, geralmente atacam em bando, saltam de dentro para fora e de fora para dentro da pessoa, cravam os dentes e sacodem a cabeça. Sorriem quando sentem o cheiro a medo e provocam o pânico fazendo comentários a respeito da lua – do tipo: “você não passa desta lua”, ou “que linda lua para arrancar teu nariz”. Senti que devia fazer companhia a este amigo que cheirava insuportavelmente a gim com pomelo. 

Seguimos três ou quatro quadras antes do aclive sem que nada demais ocorresse, porém o frio e o temor não cessavam. Arregalei o olho direito e vi que meu amigo mostrava cansaço. Ao mesmo tempo dei-me conta que chegáramos perto da passagem onde ele morava. Num stop, pus-me a aliviar a bexiga, expulsara uma variedade de objetos quando me surpreendeu o Cão dos Políticos. À minha frente, éramos só pelos eriçados. Meus dentes começaram a tremer e, depois, em seguida, a chocarem-se dentro da boca. Por que fosse somente um cão, e não o bando costumeiro, houve tempo e circunstância para que o amigo me tirasse do torpor com um safanão. E deitamos o cabelo em disparada; no íngreme do aclive senti que a fera me abocanhava por de trás sem conseguir me apanhar. Dobramos em direção ao Círculo, sempre em disparada, por fim senti que soava uma campana em meu peito. Neste feito fui eu quem pensou: “que linda está a lua para pular o muro do inconsciente”. E assim o fiz, deixei pra trás o amigo que restou de boca aberta ao ver o arremesso perfeito que propeli ao meu corpo; ainda que o tenha visto de soslaio, enquanto eu atravessava o cimo do muro, não pude saudar-lhe em definitivo. Estava eufórico por poder ir cantar em outras freguesias. 

E não mais relato, do que, do outro lado esperavam-me as borboletas, as libélulas e as mariposas, que, em seu vôo firmavam uma rede feita de novelos de lã e chilreavam sons que pareciam entoar Fé Cega, Faca Amolada.         




Sérgio B. Christino
Postar um comentário