terça-feira, 14 de setembro de 2010

EU E AS FORMIGAS NO REINO DA GUATEMALA

Foto J. Passos

Saio pelas calles floridas sem me dar conta do mau tempo; só vejo luzes, sombras, a falta e o excesso que há em cada forma. Antes do anoitecer terei escrito um livro multicolorido e ao mesmo tempo sombrio. Assim são as pessoas o tempo todo. Mesmo que não fossem, seria eu a oscilar feito o pêndulo do tempo.

Há muito deixei de lado a obsessão pelos rostos tristes; não sou mais tão triste que não possa ignorá-los, mas os preservo na memória feito cicatriz cansada. Não sei se minto para mim mesmo ou se abuso da ironia. A neblina ainda não se dissipou por completo.

Cada cão que ladra me acusa de ter feito o vazio andar à marcha-ré. Seria um despropósito evitar a madrugada depois de tantos anos, mas insisto e faço com consciência. Fato raro esse de ter consciência quando todos esperavam a glória, o choro fácil, o tenro olhar. Vai entender o acúmulo de água no piso plano.

De resto, persevero. A linha não tem fim quando feita de lã, evitado a frieza do metal. A frágil lã nos aqueceu por milênios e, salvo por melhor juízo, prospera. Veja lá o que levas aos pés e pisa com cuidado. Há muitas formigas desavisadas no Reino da Guatemala.

Falo isso mais pela sonoridade da palavra guatemalteco do que por qualquer outra coisa.


Edson Martins



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