quarta-feira, 8 de junho de 2011

O Anjo

Picasso

Não achei justo ficar em casa numa noite como aquela. E que noite: na medida certa do frio. Não aquele frio que deixa o pinto encolhido. Aquele frio que nos faz querer começar a noite bebendo, vará-la conversando (e ainda bebendo) e terminá-la aquecido, obviamente acompanhado.
Fui olhar minha cara no espelho. Estava com a barba por fazer. Melhor assim, combinava mais ou menos com meu estado de espírito. Fiquei um tempo admirando meu rosto no espelho, olhando dentro dos meus olhos, pra ver se enxergava um pouco além. Antes do espelho embaçar, havia chegado à conclusão que, forçando um pouco a barra, poderia-se dizer que eu era um cara fodão.
Assim, embalado por esse lampejo de auto-estima, saí. É hoje, pensei, esfregando as mãos, com um brilho maligno nos olhos.
Levantei a gola do casaco (mais pra fazer gênero do que por frio) e acendi um cigarro, pelo mesmo motivo. Subi a Rua XV e me fui em direção à praça, ao encontro do meu destino.
O que se passou assim que pisei na calçada da Igreja durou uma fração de segundos, eu acho. Só lembro de que minhas pernas se lançaram para frente e que, por um milésimo de segundo, eu me imaginei dando uma bela bicicleta num jogo de bola. Ainda pude ouvir, antes de me estatelar no chão, alguém gritar:
- Vai, meu lateral!
O fato é que quando voltei a abrir os olhos, enxerguei um bando de falantes muito altos à minha volta, parecendo, mesmo, que falavam em alto-falantes. A cabeça doía demais.
Segurei na perna de um sujeito que estava matraqueando sem parar e tentei levantar. 
- Nem pensar, falou em tom amoroso uma moça, cuja presença eu não havia notado (na verdade, não estava em condições de notar a presença de ninguém). Estava vestida de branco, parecia um anjo, mas deveria ser uma enfermeira. Tinha umas pernas lindas. Deitado e aturdido do jeito que eu estava era só o que conseguia perceber. E já era muito.
Ou então, puxa, vai que a mulher é um anjo, mesmo? Sendo assim, cacete, eu estava era morto. - Porra, isso era jeito de terminar uma noite que prometia tanto?
Mas não me sentia morto. Meio tonto, meio surdo, quando muito, com a visão turva. Mas morto, morto, não. Morto não fica espiando por baixo da saia dos anjos.
Mas vai saber, nunca morri antes. E se fosse assim mesmo?
O diabo (ops!) é que ninguém me falava o que havia acontecido. E eu só conseguia pescar fragmentos do que falavam:
Que coisa...Não conheço...Ontem mesmo conversei com ele...Parece que era de Porto Alegre...Não jogava nada...Só podia estar bêbado...
Ai, cacete. Não estava gostando nem um pouco daquela situação.
Alguém pode me dizer o que foi que houve, afinal, caralho?
Pensei ter dado o berro mais alto da minha vida, mas as palavras saíram em câmara lenta, feito passeio de nuvem em tarde preguiçosa, e não alcançaram ninguém, pelo visto, porque todos agiam como se eu não estivesse ali. Com exceção da enfermeira-anjo, que agora estava ajoelhada ao meu lado, passando na minha testa o que parecia ser um pano molhado. Então notei que eu suava em bicas e tremia. Isso não me impedia de enxergar aquele decote generoso, (até nos decotes os anjos são generosos), de sentir o veludo daquelas mãos de anjo, a maciez daqueles cabelos de anjo, de estar tendo a sensação de estar “sendo fotografado pela retina daqueles olhos lindos”. E ela não tinha formas muito definidas, não conseguia ver direito como era seu rosto. Era um vulto, portanto, só podia ser um anjo.
Ela pareceu adivinhar meus pensamentos, pois ajeitou minhas lentes de contato, que haviam se deslocado com a queda. Voltar a enxergar bem não diminuiu minha impressão sobre ela, muito pelo contrário.
Tente não fazer esforço. Vai ficar tudo bem.
Tu só podes ser um anjo que caiu do céu, falei, tentando parecer charmoso (tentei ajeitar a gola do sobretudo, mas a dor nas costelas me impediu).
O único que caiu aqui foi você. E, olha, disse sorrindo, essa foi a cantada mais original que recebi até hoje, dando ao “original” um tom que não deixava dúvidas quanto à pobreza da minha tentativa.
Mas você recebe cantadas no Céu?
Essa foi um pouco melhor, ela disse. Sorrindo sempre.
Bem, dê-me um desconto. Não estou em condições de ser muito criativo. Que aconteceu comigo, afinal? O que estou fazendo aqui, deitado na calçada? E o que esse povo todo faz aqui? Estou morto ou não?
Calma, disse o anjo sorridente, com seu sorriso angelical. Não seja dramático, já vai passar. Seu hálito era uma delícia. O creme dental do Céu deveria ser de primeira.
Resolvi seguir o conselho e calar a boca. Não estava adiantando nada, mesmo. Devo ter tido um piripaque qualquer. Ou então escorregado numa casca de banana, feito um idiota. Fechei os olhos e dormi.
Acordei sei lá quanto tempo depois numa cama de hospital. Adivinha quem estava ao meu lado, sorrindo sorriso de anjo, com cabelos e olhos de anjo, perfume de anjo e tudo o mais de anjo?
Está se sentindo melhor?
Nem um pouco, mas você pode resolver isso se fizer tudo o que eu mandar.
Você é sempre assim, sutil?
Só estava querendo uma uma cerveja, pois estou com uma sede de “anteontem” (eu achei que estava matando a pau com aquelas citações de MPB).
Ela levantou-se, sem dizer palavra, e saiu pela única porta do aposento. Parecia que flutuava. Voltou logo em seguida com uma garrafa de cerveja. Não consegui ver a marca, mas rezei para que fosse Norteña. Não tinha rótulo, mas era tão gostosa quanto. Que cerveja é essa?
Não é cerveja, ela disse. É água benta.
Ok, baby. Vamos parar com as gracinhas.O autor das tiradas engraçadas aqui sou eu (eu não disse que eu era fodão?).
Ela não se impressionou e continuou me olhando.
Poderia acabar de uma vez por todas com esse mistério e dizer o que me aconteceu,afinal?
Sinto desapontá-lo, mas não há mistério nenhum. Você andava pela calçada, escorregou numa casca de banana e bateu com a cabeça. Eu havia saído do meu plantão na Santa Casa e passava pelo local bem na hora. Quando você acordou, estávamos aguardando a ambulância para trazer você pra cá.
Tu só podes estar de sacanagem comigo.
Desculpe, mas é a pura verdade. Sim, é exatamente o que você está pensando. Foi um mico e tanto. O povo lá deve estar rindo até agora.
Bem, tirando o King-Kong, até que fico aliviado. Pensei que havia batido as botas e que você fosse um anjo.
Você estava delirando. Costuma acontecer com quem bate a cabeça. Falou isso, atirou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada celestial. Desculpe, mas é que foi, realmente, muito engraçado.
Tudo bem, falei, já meio puto com aquela anja fajuta. Bem, e minha família, quando vem me visitar? 
Estão ali fora, aguardando o horário da visita. 
Legal.
Bem, vou indo. Acho que você já está melhor. Ta na hora de voltar para a “Santa Casa”.
Hei, porque tão cedo? Ainda nem sei seu nome, telefone, signo, idade, endereço, preferência sexual, já que você não é anjo, mesmo.
Ela, pra variar, apenas sorriu.
Meu nome é Lilite. E sorriu aquele sorriso que diz que é somente isso que está disposta a contar.
É um belo nome, menti.
Obrigada. Bem, está na minha hora. Tenho mesmo que ir.
Ok. E, olha! Obrigado pela ajuda, eu poderia ter morrido de verdade.
Sim, disse ela. Mas não se preocupe. Ainda não era sua hora. E, cá pra nós, não seria justo morrer de forma tão ridícula. Você merece morte melhor.
Aquele sorrisão Colgate Plus de mãe amorosa de comercial de TV já estava me incomodando.
Quando te vejo de novo insisti, com olhar malvadão.
Ela me olhou por uns breves segundos e respondeu, mas agora não sorria: Em breve.
Oba! E vais me levar pro Céu, perguntei, já me achando ridículo pelo trocadilho óbvio.
Não pro Céu. Digamos que para um lugar mais quente. (Hummmmm, agora gostei. E ela também gostava de trocadilhos).
Quis falar algo, mas antes que eu pudesse fazê-lo, ela apanhou seu tridente, pulou a janela e desapareceu na escuridão da noite.
Jorge Missagia
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