domingo, 15 de janeiro de 2012

Um Conto para Arlene

Era sábado de carnaval e ela encharcou a sapatilha numa poça de água ali, perto da Praça da Matriz. Arlene não sabia o que dizer ao noivo que havia deixado na porta da igreja por causa de Jorge, que viera do outro lado da ponte para tirar-lhe o sossego, as roupas e desgrenhar o seu cabelo, como um vendaval de Santa Rosa.

Jorge era um tipo daqueles que não dava vontade de tirar os olhos de cima. Um corpo pequeno, sem viço, porém atrativo pelo cheiro, pela boca que dava sede de água, água de qualquer tipo, sede de água da chuva, de água de poço, de água suja que se atira nas pessoas em dias de entrudo momesco. Água, apenas água com sabão era o cheiro de Jorge, o castelhano que atravessou a ponte e veio para a Vila de Jaguarão destroçar o coração de Arlene.

Nada tinha de mais na figura de Arlene. Era loira e alta, mas tinha viço, o mesmo viço que Jorge não tinha. Era bonita de rosto, um rosto forte de magricela, magricela por que alta, alta porém elegante no andar. Ela trabalhava de professora, era de família pobre, dessas que não tem grandes sobrenomes portugueses para ostentar. Era noiva de um tal Gervásio, que trabalhava no açougue do Mercado Público.

Não que Arlene gostasse dele, estava noiva por pressão da família que a queria casada a todo o custo. Arlene gostava mesmo era de Jorge, o castelhano que cheirava a sabão com água e que não tinha viço no corpo, mas atravessava a ponte para ter com ela na porta da igreja em dia de carnaval. Ela ali de sapatilhas encharcadas e ele com aquela boca que dava sede, sede de água de qualquer tipo, de água de poço, de água suja de se atirar nas pessoas em dias de entrudo momesco.

Nunca se soube por que Jorge, o castelhano, que cheirava a sabão com água, atravessava a fronteira para ter com Arlene, de sapatilhas encharcadas, na porta da igreja. Sabe-se que ela largou tudo por aquele homem que lhe causava sede, tudo para ter com ele em feliz, felicidade, numa casa modesta, logo que cruzava o Clube Unión, ali no Río Branco. Ele, Jorge, um homem sem viço no corpo, que cheirava a sabão com água e que causava sede em Arlene. Ela, magricela, com uma cabeleira loira, professora do primário, de sapatilhas encharcadas na porta da igreja, para ter com ele para sempre.

Quando Jorge alcançou Arlene, ali na frente da matriz, no dia em que ela abandonou Gervásio no altar, apenas disse-lhe ao pé do ouvido:
- Estoy aqui apenas para despeinar teus cabelos, para ser feliz de felicidade modesta, de coisas modestas. Para que atravesses de vez comigo para o lado de lá e vivas comigo para siempre!

E assim foi que ela, magricela, de sapatilhas encharcadas, professora pobre e sem sobrenome português, Arlene de batizado e nascimento, atravessou a fronteira, vestida de noiva para ter seus cabelos despenteados por Jorge, o castelhano, que cheirava a água com sabão e que não tinha o mesmo viço no corpo que ela, mas que a curou da sede, assim como ela lhe deu viço e sorriso, no dia em que beberam água suja de se jogar nas pessoas em dias de entrudo momesco.

Juliana dos Santos Nunes
http://monte6.blogspot.com/


Publicado no Jornal Fronteira Meridional, edição do dia 11/01/2012  
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