sexta-feira, 4 de maio de 2012

Além do Bem e do Mal

Foto Araquém Alcântara

Ando devagar
Porque já tive pressa
E levo esse sorriso
Porque já chorei demais!
Renato Teixeira 


Esses dias, remexendo o meu caos, reencontrei Nietzche. Aquele que escreveu muito além do bem e do mal. O mesmo que escreveu também - ou “tão bem” – que, só quem traz o caos dentro de si é capaz de gerar estrelas dançantes. E isso me lembrou a geração beat. Aqueles que botaram o pé na estrada. E o que de mais importante os beats fizeram foi se enfurecer contra o muro de silêncio e censura que havia nos anos 50. Também deram abertura para as grandes experiências que vieram depois. Uma das coisas que eles fazem até hoje é falar contra os maníacos dos Estados Unidos que vão contra a Ásia e as Américas Central e do Sul.
Aqueles que em nome do Bem querem eliminar o Mal.
Então aumentam essa lista os fundamentalistas. Bush cunhou Bin Laden de “o Mal”. Mas antes de virar do “Mal”, Bin Laden era amado e armado pelo governo dos Estados Unidos. Assim como, antes de virar Satã e ser enforcado perante as câmeras da internet, Sadam Hussein era do “Bem”.
Mal comparando, em outra época, para a Inglaterra colonialista, o “Mal” era uma alma grande de nome Mahatma Ghandi. Eliminar o “Mal”? Mas o que seria do “Bem” sem o “Mal”?
A verdade é que esses dois princípios que o homem vislumbrou desde os primórdios da humanidade sempre o incomodaram e o deixaram perplexo, quando não desnorteado.
No sul ou no norte; à esquerda ou à direita; no preto ou no branco, mas onde mesmo está a verdade? A questão é tão antiga quanto o mundo e é tão insolúvel quanto não deveria existir. Mas existe e subsiste, como sempre existiu e persistiu em se radicalizar como problema sem solução à vista.
Cabe a nós procurar as respostas e encontrar os caminhos. Podem estar no início ou no fim. Não vejo saída no meio. Esses dias, remexendo o meu caos, reencontrei uma foto.
Era uma foto de criança. Cinco anos, mais ou menos.
Mal começava 1970 e o conjunto da foto é bem convencional. Mas os olhos me chamaram a atenção. Um olhava para um lado e o outro para outro.
E mesmo assim o olhar é fixo. Fixo em algo que não se pode ver. Como quem mira o horizonte num caminho sem fim. É um olhar de quem parece saber, sem sabê-lo, que o futuro não será fácil...
Que a vida dar-lhe-á triunfos e vitórias, mas também amarguras e derrotas.
Perder e ganhar margeia essa estrada. E num lugar onde não há caminho compreender a marcha e seguir andando é a chave.
Como? Eis a questão.
A solução dos beats é simples: respirar outros ares e botar o pé na estrada. Mas, a de Nietzche é bem mais complexa.
Voar mais alto, para o alto, muito além do Bem e do Mal.
Enilton Grill
ejgrill@gmail.com  - americasgrill.blogspot.com
Texto publicado na coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional do dia 25/04/2012
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