segunda-feira, 11 de julho de 2011

Sul21: Aldyr Garcia Schlee: entre os livros, o futebol e a fronteira


                  Em entrevista ao Sul21, Aldyr Garcia Schlee fala sobre seu mais recente livro, 
Don Frutos, sua paixão pelo futebol e suas impressões sobre outra grande paixão, o Uruguai | Foto: Iuri Müller/Sul21


Iuri Muller e Maurício Brum
Especial para o Sul21
Aldyr Garcia Schlee sabe, como poucos, descrever o cenário do pampa sem recorrer aos clichês da literatura campeira. A visão diferenciada da fronteira começa na própria experiência pessoal do jornalista e escritor nascido em 1934 no sul gaúcho. Jaguarão, sua cidade natal, localiza-se na divisa com o município uruguaio de Río Branco. Dali, Schlee tirou as referências para construir o contexto de culturas irmanadas e a eterna tentativa de fundir os idiomas de um lado e outro do rio, tão presentes em sua obra.
O jornalista Schlee trabalhou no diário porto-alegrense Última Hora, extinto com o golpe militar, e ganhou o Prêmio Esso em 1963. Fora do País, o jaguarense é mais conhecido pelo seu trabalho como artista gráfico: além de planejar visualmente seus livros, ele é o desenhista do uniforme “canarinho” da Seleção Brasileira. Em 1954, aos 19 anos, Schlee venceu um concurso nacional que buscava um novo fardamento para a Copa do Mundo da Suíça, após a frustração sofrida no Maracanã em 1950.
Curiosamente, a ligação com a Seleção se restringe àquele desenho de 57 anos atrás. A proximidade com o Uruguai se refletiu em outros aspectos da biografia de Schlee, que não hesita em se declarar torcedor da Celeste Olímpica. Em tempos mais sombrios, essa identificação com a realidade do país vizinho permitiu que Schlee mantivesse contato com integrantes do Movimento Tupamaro, que lutava contra a repressão no Uruguai – o escritor chegou a abrigar guerrilheiros em sua casa de Porto Alegre.
Hoje, Schlee passa a maior parte do tempo em um sítio na bucólica Capão do Leão, perto de Pelotas, onde avança com seus projetos literários. Autor de muitos livros de contos (entre eles O Dia em que o Papa foi a Melo, de 1991, que inspirou o filme O Banheiro do Papa), o escritor lançou no fim do ano passado o romance Don Frutos, sobre a vida de Fructuoso Rivera, primeiro presidente do Uruguai. Na mesma época, foi surpreendido com a conquista do Prêmio Fato Literário, que acreditava estar nas mãos de Lya Luft.
Aldyr recebeu nosso telefonema no final de uma tarde de fevereiro, poucos dias depois de retornar das férias em Punta del Este, solicitando uma entrevista. Prestativo, o escritor sugeriu um encontro em Pelotas já na manhã seguinte. Na conversa reproduzida abaixo, o escritor fala de suas paixões – literatura, política, futebol e, claro, o Uruguai.
Sul21 – Comecemos falando sobre a ilustração que abre Don Frutos, o último livro lançado.
Aldyr Garcia Schlee – No meio de toda a papelada, dos documentos que eu tive que consultar, que um amigo (Amílcar Brum) conseguiu, havia um inventário da Dona Bernardina Rivera, a esposa do Rivera (Fructuoso Rivera, primeiro e terceiro presidente da República Oriental do Uruguai e protagonista do romance). Quando ela morreu, fizeram um inventário e nos bens constava um retrato do Rivera sem assinatura do autor. Mas cruzando por casualidade a informação com a de um escritor que publicou um livro só com a iconografia do Rivera, achei uma nota dizendo: “há também um retrato do Rivera de autor desconhecido que nunca ninguém viu e que estaria no inventário da Dona Bernardina”. Foi um achado, nada mais literário que isso. Agora eu pinto o retrato do Rivera, atribuo ao desenhista, pintor e gravurista que teria convivido com ele (Herrmann Rudolf Wendroth) e está tudo resolvido. Fiz o desenho, envelheci o Rivera a partir de outros retratos, pintei a forma com que ele teria sido pintado, com cores, um retrato grande, que me deu muito trabalho (demorei quinze dias para pintar) e fiquei cada vez mais entusiasmado com a história, que coloquei no livro. Esses dias estive no Uruguai e acertei a publicação de Don Frutos. Agora eles viram o livro pronto e querem, com pressa.
O outro livro, o do Gardel, dos “Contos Gardelianos” (Os limites do impossível), eu combinei com os uruguaios que eles fazem como quiserem, mas a forma gráfica faz parte do livro e eles precisam respeitar como aqui. E a última revisão precisa ser minha, com cuidado. Isso porque lá no Uruguai eles são escravos do dicionário da Real Academia Espanhola, e como o livro tem muitas expressões em portunhol, com americanismos, mesmo em português, a forma gráfica, a formação da frase, a sintaxe, eu quero manter em espanhol como eu fiz. O primeiro livro que eu fiz em espanhol, O Dia em que o Papa foi a Melo, o cara para qual eu mandei disse “ah, muy bien, tu español es un poco excéntrico, pero tenemos que abrandarlo um poco,  hay muchas palabrotas, impropiedades, situaciones de relaciones sexuales. Hay que abrandarlo”. O cara queria mexer nesse aspecto. Que nem padre jesuíta! Tive que tirar do cara para que saísse como eu queria.



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