terça-feira, 20 de setembro de 2011

Façanhas

Aos façanhudos que fazem do lixo, sobrevivência.

LIXÃO

Como me havias pedido
Amassei todos os nossos poemas, canções, hai-kais,
Que falavam de amores secretos
E joguei no lixo.
Junto com os dejetos da cidade
Embarcaram e foram triturados.
Mesclaram-se, esperam a decomposição.

Mas, antes desta fatalidade,
A força da palavra parece revolucionar  a fedentina.
Uma azeda caixa de leite Danby
Se enruga toda ao ouvir de um
Desbotado tubo de Avanço:
“- eu tremia- e amava-
As estrelas me miravam
A noite dormia
E eu pensava em ti”.

Entre o monturo,
Ressoa o eco das garrafas de plástico
Recitando para um bando de vasilhames de cartão:
“Vem e sente meu cheiro de mulher, tua, nua,
Esperando você no alvorecer a revelar-te em mim”.

Um sapato velho, como não poderia deixar de ser,
Cantava a uma meia rota:
“Se não eu quem vai fazer você feliz”.

O que restou de um pernil de carneiro
Já em putrefação
Sussurrava a uma coxa de galinha estragada:
“De que me servem minhas pernas,
Se não me conduzem no caminho dos teus passos
Nem enlaçam em abraço tuas coxas sensuais”?


De longe, um escovão de aço já careca
Gritava angustiado
A uma tampa de panela enferrujada:
“Que força cósmica nos colocou nesta distancia”?

E todos...todos - desde o mais reles saquinho de nylon
Até a mais cobiçada lata de cerveja reciclável -
Todos liam e repassavam
Nossos fragmentos de paixão despedaçados.

E assim, daquela matéria em processo de corrosão
Elevou-se um murmúrio, quase uma sinfonia
Impregnando de vida o aterro sanitário.

Neste dia
Quem vive (e se alimenta)
Da coleta e separação destes resíduos
Em solene atitude de respeito
Não trabalhou.

                                              Jorge Passos




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