sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Un tal de fúbol!

Macanudo Taurino - Santiago



Certa feita me invitaram,
uns amigos orientales,

a jogar um tal de fúbol

no campo de Don Morales...

Les agradeci o convite,
disse que não sabia jogar;

mas insistiram que eu fosse

que o causo era só por chivear...

E lá me fui mui facero,
c'o pingo bem aperado,

achava que esse tal jogo

era carrera o cartiado...

Cheguei na cancha indicada,
mas fiquei meio indinado,

subesse que a cosa era ansim

eu não vinha tão pilchado...

Em seguida veio um deles
pa' remediar a situação,

me troxe carpim, chutera,

camiseta azul e calção...

Don Manoel, dono do time,
ajuntô toda a cambada,

disse um lote de camanga

e u'a manga de barbada...

M'escalaram de que sei eu,
total era nome em inglês,

e ansim començô o tal fúbol,

que foi terminar no xadrez...

Em cada lado da raia,
um bando de onze jogador;

no meio um loco de negro,

fazendo as vez de apitador...

Logo empeçô o meu tormento
(amigos, nem queiram saber!),

apanhei como boi ladrão

e quase nem pude bater...

Que a equipe do Morales,
de camisa colorada,

adorava nos dar chute,

rastera e cotovelada...

Da comparsa adeversária
levei um ror de patada,

e pa' colmo os do meu lado

me cagavam a putiada...

Se deram conta que eu era
completo inorante e chambão,

me mandaram ficar no arco

e seguiu nomás a função...

Me deram um par de luva,
uns protetor de joelho,

camiseta manga larga

e uma ponta de conselho...

Tinha essa tal de golera
dois palanque e um travessão,

me disseram que ali eu podia

até mesmo atacá co' as mão...

Me disseram que de arquero
era mais tranquilo lidar,

que se vinhesse algum chute,

eu só tinha que me atirar...

Mas a cosa parô feia,
mais jodida que já tava;

fora o lote de sopapos,

levei um bolaço puava...

Robaro a bola da zaga
e se vinheram de novo,

de perto me la patearam

e pegô bem nos meus zôvo...

Vi, como num dia d' eclipis,
tudo escuro na mi'a frente,

que um golpe no entrepernas

é de bolear um vivente...

E despois rodei de boléu,
vendo o mundo girando;

diz que colorado de dor,

entre gemendo e urrando...

Don Morales, tipo bueno,
agarrô e foi na "catchila"

buscar uma curandera

que morava em otra vila...

Por ser um causo mui sério,
escolheram Tia Marucha,

que um se curava ligero

só de olhar pa' tal bruxa...

Dali um poquito chegaram
tapados de polvadera

e velha disse mui brava:

Uta, quê estrada porquera!...

E foi sacando, da bolsa
mui mugrienta e cascaruda,

santinhos, yuyos distintos,

velas e galhos de arruda...

E as percanta do chinero,
que do alambrado bombeavam,

pa' não perderem um freguês,

junto co' a velha rezavam...

Com tanto chá e benzedura,
fiquei curado mui pronto;

mas fiquei de fora olhando,

tava ainda medio tonto...

E a partida seguiu nomás,
zero a zero como empeçô,

até que o nosso pontero

adentrô solito e marcô...

Já foi aquele salsero,
partiram pa' cima do juíz

e, pedindo um tal de "or sáide",

cagaram a pau o infeliz...

Despois disso fechô o tempo
e os times s' entreveraram,

palavrão, biaba, dentada,

passapé e coice sobraram...

Até eu, que tava neutro,
tive que entrar nesta dança,

queriam me dar uma sova

de não sair da lembrança...

Mas dei de mão numa tauba,
já pressentindo o perigo;

não ia les dexar barato,

pois eu levava um comigo...

Les disse pa' virem de a um,
se fossem machos de veras,

e, reboleando a madera,

fiquei esperando as feras...

Mas nisso o fandango parô,
que vinha vindo a polecía

(e parece que angurrienta!)

como chancho pa's melancía...

Saíram logo disparando
todos os que podiam andar,

mas não puderam ir longe

que tava cercado o lugar...

Nos arrebanharam todos
o mesmo que tropa de bois,

num caminhão nos meteram

e fumus p'o quartel, despois...

Chegando na Comissaría,
dá-le prestar declaração

e, pa' calmar os ânimo,

drumimos tudo na prisão...

A la pucha, noite fiera,
com tanta pulga e mosquito,

um que peidava dormindo

e otro que sonhava aos grito...

E no domingo bem cedo,
deram ordem de soltura,

não sem sermão de hora e pico,

com café e galleta dura...

Tanta gente arrependida
de ter entrado na peleia,

podendo estar com sua prenda,

ter que pernoitar na cadeia...

E ali mesmo fizemo as paz,
novo jogo foi marcado,

mas desta vez sem bochincho

e, de juíz, o delegado...

Seria no pátio do quartel,
no meio da melicada;

sem arma, canha e piguancha,

senão dá bagacerada...


Mas, se eu for, voi vichar nomás,
que cansei de levar murro,
pois trompaço grátis
,
é pa' quem é loco o é burro...

Melhor ficar curiosiando,
total, sô mesmo maleta,
já basta os puaço que levo
nessa mi'a vida sotreta!


Relato humorístico
de El Chango Duarte
Brasília/DF, 03/VII/1990.

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