sábado, 9 de outubro de 2010

A Pele do Cordão

Foto J. Passos



Estendia-se a pele da noite; mesmo que sua densidade não tivesse ainda o vezado calor dum John Coltrane, fosse apenas a melodia clara e penetrante de um solo silvado. O desafio de atravessar o espaço pedalando uma bicicleta naquele entardecer com a música no corpo. O recorte de uma minissaia, as pernas.


Os da Rua do Cordão engolem: Curvas lusque-fusques, tacões. As mães raiva/ciúme/inveja e medo: Bicheira, uma tipa. Os pais cofiavam o bigode recolhendo o queixo e a barriga, pubianamente gaviões. Negrinha sem ser negra. Era da Rua, não do Outro. Para este Outro ali, no Cordão e na Zona, só havia elementos. Que naquela hora entardeciam na querência com o mesmo galdir que os demais. Um tipo que assobiasse, na esquina, de mãos no bolso, com a cabeça um pouco inclinada, de modo a sair o sopro mais alto –fantasiando um pássaro-, visse Negrinha, por certo assobiaria mais alto e, no intervalo do fraseado, cuspiria o viscoso da saliva para apurar o gorjeio e pugnaria pelo acasalamento. Limparia o bico dos sapatos na perna da calça, ou golpearia o pavimento com a ponta do pé.



O dela era passar – água de esgoto a céu aberto, promessa de absconsa atividade vênero-vegetal. Para os Outros, naquele entardecer, seria a transeunte de Baudelaire. E ainda ali, na Rua do Cordão, este passar era de academia de samba, um passar mágico, um acontecer colorido e cheio de sedução.





Sérgio Christino
Postar um comentário