segunda-feira, 21 de novembro de 2011

O Choro do Pica- Pau


Foto: Maria de Fátima Bento Ribeiro

Houve uma ordem: colocar abaixo uma árvore com o tronco seco para utilizar a madeira na feitura de uma cerca. O sargento, com sua usual enérgica voz, determinou que três dos seus soldados se dirigissem ao bosque do campus universitário e derrubassem aquele enorme eucalipto localizado nos fundos do auditório. Um acordo entre o Exército e a Universidade possibilitava essa ação. Os militares, muitas vezes, realizavam a limpeza da área aberta do campus. Cortava-se o capim, juntavam-se entulhos e recolhia-se o lixo que inadvertidas pessoas, eventualmente, jogavam no local. Em contrapartida, tinham autorização para subtrair algumas das árvores condenadas. Um biólogo havia diagnosticado e indicado os caules mortos e que deveriam ser cortados para evitar que, em caso de fortes ventanias, causassem estrago ao patrimônio material, fosse de algum dos prédios ou mesmo um automóvel parado no estacionamento.

A tarefa era simples. Os três soldados tinham prática e, com isso, condições de executá-la com todo o cuidado. O som da motosserra era um tanto perturbador e até assustador, mas com o tempo eles já tinham se acostumado. Algumas cordas seriam necessárias para amarrar os galhos altos e, assim, não deixar que, na queda, destruíssem um telhado ou mesmo a cabeça de um indivíduo.

O trabalho foi rápido e considerado eficiente. Algumas poucas horas de uma tarde foram suficientes para organizar e realizar a ordem dada. Depois foi só carregar a matéria-prima produzida para ser utilizada na cerca.

Na manhã seguinte, os acadêmicos estavam reunidos no auditório. Estudantes, técnicos administrativos e professores participavam de estudos de planejamentos estratégicos para o campus. Coordenadores e Pró-reitores da Universidade desenvolviam oficinas, visando criar e estruturar projetos. Entre uma explanação e outra, entre uma intervenção e outra, todos se encantavam com a bucólica presença de um pica-pau na janela. Junto ao vidro e aos gritos, ele parecia, com insistência, querer participar dos debates. Talvez porque encantado com inusitada imagem, aquele público não reparou que os saltos e bater de asas do pássaro eram de desespero. Se tivessem tido maior atenção, teriam até visto lágrimas nos olhos do pica-pau. Ele não tinha mais um toco para picar. Ele não tinha mais o seu ninho. E ele nunca mais viu seus pequenininhos pica-paus que, até a tarde anterior, não tinham ainda aprendido a voar.
Carlos Rizzon

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