sábado, 26 de novembro de 2011

Clube Social é Patrimônio Público ou Memória Cultural - ou tudo é a mesma coisa?


Vejo a fotografia que foi tomada em seguimento à queda do telhado do clube Jaguarense. A circunstância do Finados influi na minha leitura da imagem. O feriado de finados é de origem pagã, celta, e, tal qual o halloween, são efemérides que demarcavam ciclos agrários – passagens. Posteriormente o calendário cristão dedica o último a Todos os Santos e o primeiro aos mortos. É este aspecto da passagem, da fronteira entre dois tempos, que me assalta.

A foto do desabamento mostra a fenda ruinosa rasgando, em diagonal, o ângulo superior do prédio. A rachadura conduz meu pensamento em dois sentidos, ambos perpassados pela memória temporal.

Há muito que li A queda da casa de Usher, do genial escritor americano Edgar Allan Poe, porém, este conto foi reavivado agora pela fotografia do infausto acontecimento. Esta obra de Poe inspirou A casa tomada, de Júlio Cortázar, escritor argentino, cuja leitura e re-leitura me são recentes. Em ambos temos a evocação de tempos de glória. Temos personagens que estão em desacordo com o mundo circundante: um irmão e uma irmã isolados de terceiros e ligados por uma relação afetiva mais forte do que a fraternal.  Uma espécie de confraria secreta, outrora feliz, que teme ser invadida e sobre a qual forças tempestuosas haverão de se abater. Nos dois relatos, a justiça ou a injustiça destas forças desestabilizadoras não é questionada pelo contrário, ocorre um certo alívio perante a ação indesejada delas, o esgotar-se de uma tensão insuportável. Diante do inevitável, o personagem de Poe apresenta ao narrador uma cançoneta em que os tempos idos são chorados melancolicamente:

E, em volta do palácio, a glória
Que brilhava e florescia
Não passa agora de mal lembrada história
Dos velhos tempos sepultados.

No conto de Cortázar a casa é invadida, no de Poe a casa desmorona, em Jaguarão o telhado ruiu. Olho a fotografia, vejo a fenda ruinosa e ameaçadora e penso nos demais clubes jaguarenses. Retorno aos conturbados anos setenta, o contexto avassalador e massificante das discotecas. Lembro que por aquela época o Mestre Pino, artista plástico singular, pintara uma série profética de quadros que retratava os clubes de Jaguarão - não sei se todos, mas pelo menos o Harmonia e o Jaguarense. O impactante desta série é que os retratava na sua materialidade e concretude, porém evanescentes, flanando nas nuvens, sem pontos de aplicação, terrivelmente vazios.

Clube Harmonia - Luis Carlos Monteiro-  Mestre Pino

A genialíssima Agnes Heller, em um texto de 2003, diz que memória cultural é construção e afirmação da identidade. E que, enquanto um grupo de pessoas conserva e cultiva uma memória cultural este grupo de pessoas existe; caso contrário não, eu presumo.

Sérgio Batista Christino   

Texto publicado na coluna Gente Fronteiriça do  jornal Fronteira Meridional do dia 24/11/2011

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