quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O Dragão das Irmandades

Soldado Osmar Martinez

Quem visita o Cemitério das Irmandades e caminha pelos seus corredores cheios de mausoléus e olhares que nos miram por detrás das fotopinturas  centenárias ,  pode encontrar, à direita da capela, para quem entra pelo corredor central, um túmulo com a imagem do jovem soldado Omar Martínez e a placa do Nono Regimento de Cavalaria uruguaio,  indicativa do seu falecimento no cumprimento do dever. No mesmo túmulo, encontra-se outros falecidos da mesma família Martinez, os quais deduzimos serem uruguaios que moravam em Jaguarão.

A curiosidade pela história do soldado Osmar nos impeliu à pesquisa. Descobrimos na história do "Regimiento de Dragones Libertadores de Caballeria Número 9", que sua origem remonta ao século XVII,  quando se formou o primeiro Corpo de Dragões que se tem registro na Espanha.   A denominação Dragões, para os regimentos de cavalaria, origina-se do Império Romano, em que cada coorte (formação militar) tinha um signum (estandarte militar) particular e depois das guerras Dácias e Partas de Trajano no oriente, o estandarte do dragão (Draco), passou a ser usado nas coortes Sarmatarum (Sármata) e Dacorum (Dácia), ou seja, as coortes de cavalaria.

Sármata a serviço de Roma com o estandarte do dragão, reconstrução de Gerry Embleton com base na estela de Chester e na escultura da Coluna de Trajano. fonte Fantastipedia

Na  época da conquista da América, estes corpos de elite foram amplamente utilizados para afirmar a expansão espanhola no novo continente. No Rio da Prata, os dragões estiveram na  primeira liberação  de Montevideo no  ano de 1723, quando Bruno Zabala enviou de Buenos Aires, 150 Dragões sob o comando de Alonso de la Vega, dando combate à força portuguesa que iniciava a construção de uma fortaleza nessas terras.

Os mais renomados regimentos de Dragões espanhóis que operaram  na Banda Oriental foram os Regimentos de Sagunto, Lusitania e Numancia, entre outros.

No ano de 1811, Artigas cria a primeira unidade de dragões, posteriormente chamados de Blandengues Orientales. Na época Artiguista  e nas  lutas pela independência do Uruguay,  os vários regimentos de Dragões se destacaram sob o comando de Fernando Torgues,  Fructuoso Rivera y Manuel Oribe.

Logo  após a Batalla de Sarandí e da entrada das Províncias Unidas na guerra  contra o Império do Brasil, se forma, com base no “Primer Escuadrón de Dragones Libertadores” o “9no Regimiento de Caballería de Línea”,  sob o comando do então  Tenente  Coronel don Manuel Oribe, que participou ativamente entre 1826 e 1827 de várias ações , entre elas a ocupação de Bagé, batalha de Camaquã e o combate de Las Piedras.

 O Regimento é incorporado ao novo exército uruguaio depois da independência sendo nomeado o primeiro em sua arma.

 Em 09 de abril de 1920 a tragédia. Numa manobra de rotina, no Paso Belastiqui, departamento de Rocha, programou-se a  passagem do curso d’água por parte de uma seção da Unidade. Subitamente, espantou-se uma égua, provocando que vários cavalarianos perdessem o controle de seus animais errando o ponto de cruze e sendo arrastados pela correnteza. Entre as sete vitimas fatais registradas neste insucesso, encontrava-se o soldado Osmar Martínez. 

             O fato do sepultamento de Martinez em Jaguarão, no Cemitério das Irmandades, permite-nos supor que, à época, houvesse certa liberalidade no translado de corpos nesta fronteira. Ainda não havia sido construída a ponte sobre o rio Jaguarão e por certo a fiscalização deveria ser bem mais branda nesse sentido. A burocracia para tais procedimentos e as proibições sanitárias, depois de instalados os controles de fronteira, fez com que familiares ou amigos de pessoas mortas repentinamente, de um lado ou de outro, fossem praticamente forçadas a realizar verdadeiros atos macabros, como passar um defunto sentado no carro.  “O fulano está tirando apenas um cochilo” ou “se passou e bebeu demais”, era a desculpa, se parados na cruzada da Ponte.

            É comum para esta gente fronteiriça ter parentes enterrados em ambos os lados do rio. Visitar o Cemitério significa não apenas reverenciar nossos antepassados, mas também descobrir um pouco da história que construíram.       

Placa no túmulo do soldado Osmar Martinez

Jorge Passos

Fontes consultadas: http://www.ejercito.mil.uy   
                                     http://pt.fantasia.wikia.com


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