terça-feira, 8 de novembro de 2011

Não é por nada, não ou O grande defeito em estar vivo


Esse é o grande defeito em estar vivo.

O grande problema não são as tensões políticas, as religiões, os mantras, os  depravados, os bonzinhos, ou mauzões, não são as criaturas à espreita no escuro, não são as sombras desenhando silhuetas nos olhos assustados da criança que não consegue dormir, tampouco os aeroportos lotados de pessoas que não puderam embarcar, ou os filmes de terror trash que ainda passam nas madrugadas da nossa mente, e por mais que isso possa parecer incrível, também não é por aquelas comédias românticas que tem sempre as mesmas formas e os mesmos finais. 

Não é por que os nossos sonhos estão mortos, ou por que a mídia nos obriga a engolir tudo de ruim que conseguem produzir, não é pela novela das 9, pelo Big Brother depois da novela, pelo Luan Santana no Domingão do Faustão, não é pelos corpos semi nus de mulheres sendo explorados em programas dominicais que deveriam ser programas de humor e não ponto de encontro de adolescentes excitados, que ficam se digladiando tentando definir qual daquelas mulheres ali estampadas, tal qual um produto em liquidação, é a que mais lhe apetece.

Não é pelas guerras que fabricamos cada vez que nossos dentes afiados de estar vivos encostam no pão com gergilim de um Mac lanche feliz. Não é pelo sorriso macabro de Ronald McDonald brincando com crianças que não sabem exatamente o que estão fazendo em uma propaganda programada a propagar. Não é por que a religião nos dominou por séculos, e tampouco, por que aos olhos desse Deus católico( Não meu Deus, graças a Deus) somos todos pecadores, e condenados ao inferno.

Não é por nada disso, não. Não é por nada. É por nós mesmos, é por permitirmos que tudo isso nos conduza por ruelas de inconsciência coletiva, é presentear nosso silêncio, quando deveríamos impor nossa revolta. O Grande defeito em estar vivo, é que não estamos realmente vivos. O grande defeito em estar vivo é pensar que estar vivo se limita a respirar. Há homens que não respiram há tanto e tanto tempo, e estão muito mais vivos que todos nós, mas não é por nada disso. Não é por nada, não.

Nicolás  Gonçalves

Publicado na Coluna Gente Fronteiriça do jornal Fronteira Meridional no dia 03/11/2011
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