quinta-feira, 12 de abril de 2012

Hoje tem Exílios, filme de Tony Gatlif no Cineclube Jaguarão


Filme será exibido  na Casa de Cultura as 20hs. Entrada franca

Zano (Romain Duris) e Naima (Lubna Azabal) estão na Argélia: franceses, namorados, caminham sozinhos na direção oposta a da multidão, misturando-se com ela. Neste plano emblemático de Exílios, Tony Gatlif (prêmio de melhor direção no Festival de Cannes) promove a migração inversa dos personagens, os quais, em busca das lembranças perdidas, entram em contato físico e corpóreo com a realidade sócio-cultural árabe - que, a princípio estranha, acaba por construir a identidade e a memória afetiva do casal.

Exílios abre com plano fechadíssimo nas costas de Zano que, nu, observa o movimento das ruas a partir de seu apartamento, enquanto música unindo motivos árabes e technos – que não se sabe, de início, fazer parte ou não da diegese do filme – fala sobre a necessidade de ouvir os ausentes. Desde já, Gatlif questiona o corpo enquanto local privilegiado onde ocorre a experiência sensível, ou seja, a pele como elemento de transição entre o interior e o exterior, entre o que não se é no presente para o que se quer ser no futuro, através do passado, movimento que estrutura a narrativa sobretudo por meio das canções (a maioria composta pelo cineasta). Estas em geral se iniciam diegeticamente (ouvidas pelos próprios personagens) para depois se expandirem ao filme em si, combinando-se de maneira melódica com os ruídos específicos de cada seqüência.

À proposta de Zano, Naima aceita ir à Argélia. A jornada, que atravessa a Espanha, o Marrocos e o país-destino, serve para os protagonistas reencontrarem suas lembranças: ele, a família que resta na capital, após o exílio forçado do avô músico; ela, a origem árabe, marcante no nome, que o pai negava ao não conversar com a filha na língua natal. Contudo, se a procura parte de objetivos específicos, Gatlif os esvazia ao longo do filme, uma vez que são os acontecimentos – visuais, sonoros, táteis, palatais, olfativos – experimentados pelo casal ao longo da viagem que interessam à narrativa: seja o olhar sobre a terra árida e as cidades destruídas pelas quais atravessam, seja o contato com os irmãos árabes rumo à França ou com o grupo de ciganos, seja os ataques de mosquitos ou a chuva, seja a festa em Sevilha na qual Naima trai Zano com um nativo, seja a reconciliação do casal na plantação de ameixas, seja a tomada, como clandestinos, do barco errado e a conseqüente e não planejada ida ao Marrocos.

Trata-se do ato de in-corporar, através do que o casal apreende e mergulha na realidade alheia que se lhes apresenta. Criar laços, fomentar relacionamentos com todos os “ausentes”, esquecidos e marginalizados que cruzam o caminho dos personagens principais, como no belíssimo plano em que Gatlif destaca o contato da gota de suor, de uma completa desconhecida, no braço de Naima. Assim, não por acaso, há onipresença de manifestações coletivas – a reunião com os ciganos, a festa em Sevilha, o encontro com a família dos irmãos que foram para a França, além da aproximação de Zano com os parentes – que culminam no longo plano-seqüência no qual a protagonista, mais do que apenas passar por simples transe mediúnico, convulsiona o próprio corpo como símbolo da entrega e da identificação com as memórias e lembranças construídas durante o percurso (e, visto que está em jogo a relação entre o corpo de Naima e o meio afetivo que o abriga, a seqüência somente poderia ser filmada em plano único, que mantém a continuidade espacial negada pelo corte).

Gatlif, porém, sabe que Exílios existe enquanto viagem dupla, e não individual, pois o reconhecimento do casal nos Outros passa  pela comunhão entre Zano e Naima: após o ápice representado pelo plano-seqüência, há o singelo corte para o casal se entreolhando, em primeiro plano, com o fundo inteiramente desfocado, como se nada mais existisse fora daquele momento único envolvendo os dois. Ao final, ambos prosseguem, juntos, caminhando não se sabe para onde – já que, de fato, o destino é menos importante que o deslocamento em si, das mulheres e dos homens anônimos que nele surgem –, enquanto o walkman, colocado por Zano no túmulo do avô, toca: a música, ao mesmo tempo simples onda sensível aos ouvidos e verdadeira força transcendente, realiza a ponte entre as memórias adquiridas e o futuro em aberto.

Paulo Ricardo de Almeida
Crítico de Cinema

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