sábado, 7 de abril de 2012

Neurosciência Literária

Texto de Érico Assis



EM MEIO AOS bipes e cliques dos aparelhos digitais, pode ser que as virtudes antiquadas da literatura tenham perdido importância, ou mesmo tornado-se fúteis. Mas a literatura pode ganhar um novo reforço a seu valor, de uma aliada inesperada: a neurosciência.

Exames neurológicos têm relevado o que acontece na nossa cabeça ao lermos uma descrição detalhada, um metáfora pregnante, um diálogo emotivo. Histórias, demonstram pesquisas, estimulam o cérebro e transformam as nossas atitudes.

Os cientistas sabem há muito tempo que as áreas “clássicas” da linguagem, como a Área de Broca e a Área de Wernicke, envolvem-se na atividade do cérebro de interpretar palavras escritas. Nos últimos anos, o que os cientistas vêm percebendo é que as narrativas ativam igualmente diversas outras regiões do cérebro, o que ajuda a explicar porque a experiência da leitura pode ser tão viva. Palavras como “alfazema”, “canela” e “sabonete”, por exemplo, provocam reações não apenas nas regiões do cérebro que processam a linguagem, mas também naquelas que lidam somente com cheiros.

Em um estudo de 2006 publicado no jornal NeuroImage, cientistas espanhóis pediram aos participantes que lessem palavras com forte associação a odores junto a palavras neutras, enquanto o cérebro deles era examinado através de um aparelho de ressonância magnética. Quando os sujeitos viram as palavras em espanhol para “perfume” e “café”, seus córtex olfatórios primários acenderam; quando viram palavras como”cadeira” e “chave”, a região ficou apagada.

A forma como o cérebro lida com as metáforas também foi estudada minuciosamente; alguns cientistas defendem que figuras de linguagem como “que dia duro” são tão comuns que o cérebro trata apenas como palavras e nada mais. No mês passado, porém, uma equipe de pesquisadores da Emory Univeristy relatou na revista Brain & Language que quando seus sujeitos pesquisados leem uma metáfora que envolve textura, o córtex sensorial, responsável pela percepção de textura pelo tato, fica ativo. Metáforas como “o cantor tinha voz aveludada” e “as mãos dele pareciam couro” excitavam o córtex sensorial, enquanto frases de significado idêntico, como “o cantor tinha uma voz agradável” e “ele tinha mãos fortes”, não.

Cientistas também descobriram que palavras que descrevem movimento também estimulam regiões do cérebro que não as áreas de processamento da linguagem. Em estudo comandado pela cientista cognitiva Véronique Boulenger, do Laboratório de Dinâmicas de Linguagem na França, os cérebros dos participantes foram examinados enquanto liam frases como “João pegou o objeto” e “Pablo chutou a bola”. Os exames revelaram atividade no córtex motor, que coordena os movimentos do corpo. Mais que isso: a atividade estava concentrada numa região determinada do córtex motor quando o movimento descrito era relativo ao braço, e em outra região quando o movimento era relativo à perna.

O cérebro aparentemente não faz muita distinção entre a leitura de uma experiência e encontrá-la na vida real; nos dois casos, há estímulo às mesmas regiões cerebrais. Keith Oatley, professor de psicologia cognitiva da University of Toronto (e romancista), propôs que a leitura produz uma simulação vívida da realidade, que “roda nas mentes dos leitores assim como os simuladores rodam nos computadores”. A literatura – com seus detalhes fragrantes, metáforas criativas e descrições minuciosas de personagens e suas atitudes – oferece uma réplica especialmente rica. Em pelo menos um aspecto, os livros de ficção vão além da simulação da realidade e dão aos leitores uma experiência que não se encontra fora da página: a oportunidade de entrar por completo nos pensamentos e sentimentos de outro…

Leia mais sobre isso em ‘The New York Times’: The Neuroscience of Your Brain on Fiction

Fonte: http://crashbangbang.wordpress.com

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