sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Luzes! Câmeras! Poesia! Balde- Ação! Babel!!


Baldeação remete aos idos do transporte ferrocarril. Para mim evoca o trajeto da estrada de ferro Jaguarão-Pelotas. Na Estação Basílio baldeavam-se os passageiros para o trem que vinha de Bagé e que ia para Rio Grande passando pela Princesa. A pequena Basílio – que, na Revolução da Degola, resistiu ao tiroteio maragato em 1895 – era para mim a fronteira entre o trem bonachão, pasmo e o outro, a babel de negociantes que iam tratar de assuntos no Porto de Rio Grande, uma passagem forçada para o frenesi da vida moderna. Para os basilienses a baldeação era, quiçá, a celebração do evento histórico da Revolução Federalista – vinham todos à pequena estação e sempre mofavam um pouco dos passageiros.

Retomo o significado e a sonoridade da palavra baldeação no contexto do vídeo genial de Jorge Passos, que faz a leitura fílmica do poema Ode à Confraria, de Martim Cesar. Na verdade, um belo soneto cuja irônica chave de ouro constata que: O poeta, enfim, é o caranguejo que se libertou do balde.

O balde é o avesso, o que é imposto. Ora o baldear-se é fugir disto, da imposição. Bueno em termos da semântica, se pode dizer que o vídeo arrancou a poesia do balde, baldeou-a, fez do soneto – rimado, metrificado, disciplinado – palavra social. Baldeou-se a Ode. Confesso minha quase fanática admiração pela obra poética de Martim Cesar. Mas aqui é outro trem. A viagem é que é a mesma, a linguagem do cinema é o movimento, circulação de palavra-moeda, palavra sem dono, porém com seu atributo maior que é o valor.

Não se trata de uma arremetida contra a palavra escrita – são coisas diferentes. Não que as rebeldias intramuros de qualquer arte sejam condenáveis, pelo contrário a dialética das formas estéticas é que impulsiona a criação e o surgimento da renovação em novas escolas. A propósito, aproveito para saudar a antipoesia de Nicanor Parra – irmão mais velho de Violeta – que, do alto de seus 97 anos, logrou o Cervantes em 2011. Ele que viveu à sombra e na antítese da poesia bem escandida de Pablo Neruda. Permito-me seu Autorretrato:

Soy profesor en un liceo obscuro,
He perdido la voz haciendo clases.
(Después de todo o nada
Hago cuarenta horas semanales).
¿Qué les dice mi cara abofeteada?
¡Verdad que inspira lástima mirarme!

Y qué les sugieren estos zapatos de cura
Que envejecieron sin arte ni parte.
(fragmentos)

Sérgio Christino
Jaguarense, radicado em Pelotas, servidor público, advogado, especialista e mestre em Filosofia, tem trabalhos publicados em periódicos científicos nacionais, nas áreas de Ética, Filosofia Moral e Filosofia Política; dedica-se à pesquisa do Idealismo Alemão, donde traduziu, em co-autoria, o ensaio de Hegel sobre o Direito Natural, obra até então inédita em Português.  Militou no teatro amador, por dez anos, no grupo "Cabe na sacola", que se notabilizou pela proposta de um teatro pocket. Perfila-se com a Confraria dos Poetas de Jaguarão
Artigo publicado na Coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional do dia 15/12/2011

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