terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Viva o Mestre Vado! Viva a Música Popular!


Foto Alencar Porto

“A Música é a minha Vida e a minha Vida é a Música” *
Juliana Nunes

Osvaldo Emílio Medeiros de nascimento, conhecido por todos como Mestre Vado. Nasceu aqui mesmo, em Jaguarão, e passou toda ou pelo menos boa parte da sua vida numa casa verde, cheia de música, que exalava música de suas paredes, situada ali, na Rua do Cordão.
Disse-me Vado uma vez que tinha por mãe uma mulher chamada Joaquina Medeiros e que era filha de português com africana e por pai Roberto Madeiros, brasileiro, mas com sangue castelhano e acrescentou: “deve ser por isso que sou tão sentimental.”

Com seu modo simples de vida, Vado costumava ensaiar com seu saxofone todos os dias, de maneira religiosa, para não perder a embocadura. Os primeiros ensinamentos musicais começaram aos doze anos de idade, em casa mesmo, com o pai, que era músico e sapateiro; Vado tentou seguir os passos do pai nesta última profissão, porém desistiu pelo amor à música.

Ainda nesse mesmo perído, Vado foi estudar música com o mestre baiano Euclides, que estivera de passagem por Jaguarão, e com o qual aprendeu os fundamentos principais do estudo na área da música, como solfejo entoado “sem prestar instrumentos”. E fez questão de dizer que nunca havia estudado em conservatório!

Aos treze anos já tocava um pouco e dessa forma foi convidado por Theodoro Rodrigues – um dos fundadores do Clube Social 24 de Agosto – para sair no Cordão Carnavalesco União da Classe e tamanha foi a alegria de Vado ao saber que ele, um guri de calça curta, iria tocar no Cordão do 24: o Teodoro veio falar com meu pai para sair no Cordão do 24, eu estava até jogando bola ali, de calça curta, quando vieram me chamar, ah! pulei de contente por sair no Cordão do 24, e todo mundo ia ver o cordão do 24 que tinha um guri que tocava.”

Sua folia juvenil começava nos salões do Clube 24 de Agosto, onde, portanto, iniciou sua carreira musical propriamente dita. Mas tocou também no Cordão do Eponino, em Río Branco nas cordas de sopro do candombe, tocava tango em clubes daqui, nos clubes do lado de lá, fez parte do conjunto Os Rainha e como ele mesmo disse: “tocava tango, milonga, e toquei em diversos lugares, toquei em igrejas, hospital, e muitas vezes em enterro, e enterro era praxe, morria um conhecido ia tocar.”

Seu conhecimento musical ia além do cancioneiro popular de ambos os países, tanto Brasil, como Uruguai, tocava pequenas peças clássicas; porém ao prolongar da nossa conversa, Vado se revelou um eterno chorão, gostava mesmo era de um “Carinhoso” bem chorado, sendo esse gênero musical tema de suas composições.

Mestre Vado trazia consigo, além de toda a sua vivência, a memória da sua mãe e da sua avó, ex-escrava radicada na mesma Rua do Cordão, a qual contava dos antigos enterros africanos que aconteciam nas redondezas e o início dos cultos umbandistas em Jaguarão: eram os cordões funerários da mão dada. Lembrou-se ainda do tempo em que se dançava bumba-meu-boi em Jaguarão, do Manoel Catarina fantasiado de mulher, brincando e folgando numa tradição trazida de outras regiões. Disse-me da violência do entrudo e de como se jogava água de balde nas noites de folia carnavalesca.

Osvaldo Emílio Medeiros – Mestre Vado - sempre será nosso grande Mestre que ensinou tantos outros músicos e sempre estará vivo, caminhando com seu passinho devagar, atravessando a rua para ir à missa na igreja da Minervina, descendo a rua da praia para rever um antigo amigo, trocar experiências musicais ou simplesmente para tomar um café.

A grandeza do Mestre Vado, tanto a musical, como a pessoal, ficará incrustada nas pedras de cada rua, nos salões dos clubes onde não podia dançar, mas onde se permitia o “choro” do seu piston, nas lembranças dos velhos amigos, dos jovens que o admirava, nos carnavais que embalou, nas avenidas por onde desfilou. Ficará na memória, na história e principalmente, ficará para sempre na música.

Viva o Mestre Vado! Viva a Música Popular!
*Texto feito a partir de uma entrevista concedida por Mestre Vado em julho de 2008.

A simplicidade era a marca do Mestre - foto Juliana Nunes


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