domingo, 14 de agosto de 2011

A Grande Marcha



Nestas datas comemorativas sempre nos resta o recurso de recordar, quando aqueles a quem é dedicado o dia, já estão noutras paragens. Meu pai tinha entre suas paixões a criação de galinhas. E não eram simples galinhas, eram bichos de estirpe. Sua raça preferida era a New Hampshire, das vermelhas, boas para postura e corte. Naquela época, falo dos anos 60, havia muitas pessoas que criavam galinhas em suas quintas ou pátios.

A quinta era o reino do Velho. Ali a Dona Beta não tinha ingerência. Levantava-se as 5 da manhã, cuidava do galinheiro, dos canteiros com morangos, hortaliças e também, para aproveitar as sobras, construiu a um costado, um chiqueiro, onde engordava algum chancho de vez em quando. Pois lhes conto que entre os criadores de galinhas, meu Pai era muito conceituado e volta e meia, seus galos ganhavam prêmios em exposições que se organizavam no Sindicato Rural de Jaguarão e o Maioral, esse que aparece na foto, era campeão da Grande Exposição estadual que havia em Porto Alegre antes do advento de Esteio. Sabendo da fama, muita gente vinha de longe para comprar algum espécime desses. Não era um simples hobbie, o velho tinha esta atividade como suplemento do comércio, que estava sujeito, como até hoje acontece, às flutuações da fronteira.

Morávamos no Rio Branco a poucos metros da Loja, no meio, a ponte, na sua parte que vai para a Cuchilla. Perto do Remanso. Creio que devia ser o ano de 64 ou 65. Inverno. Ameaçava repetir-se, e assim foi, uma enchente do Jaguarão que em 58* tinha invadido nossa flamante residência e fazia minha mãe falar, sempre quando essas calamidades aconteciam: "Por que foste construir esta casa aqui Ney?! "

Diante das águas que não paravam de crescer, dentre outras ações de salvatagem, havia uma medida urgente a ser tomada. Evacuar as galinhas! E eram mais de duzentas. Duzentas e treze se não me falha a memória. Destino das desabrigadas: porão da Casa Azpiroz. Acondicionadas em sacos de estopa, três a quatro por saco, pra não fazer dano, eram transportadas a muque, saindo pelos fundos , passando pela Capitania, subindo a escada até a casinha dos marinheiros, caminhada pela rampa da ponte até a escadinha que descia para a Casa Azpiroz, depositá-las no local, e voltar. Em torno de trezentos metros de distancia a ser percorrida em noite chuvosa. Duas centenas de galinhas. A pulso!

Nessa epopeia participaram os funcionários da Loja, como voluntários, claro. Eram como da família. O Caneco, o Coronel Quadros, o Vílson. A Libinha, nossa babá, tinha muito contato com El Cuerpo de Guardia da Capitania e parece que conseguiu sensibilizar algum marinero para nossa causa. Eu me recordo que fui na primeira viagem e talvez tenha carregado algum garnizé. Depois, já abrigado na Azpiroz, enquanto a correnteza das águas batendo nos vãos da ponte, dos concretos, fazia aquele ronronar característico, bom pra dormir, fiquei olhando pelas vitrinas da loja aquela verdadeira saga de salvamento das galinhas do meu Pai.


Jorge Passos
15/08/2011

*A enchente do Jaguarão foi precisamente em março de 59.

6 comentários:

Analva Passos disse...

Linda e merecida homenagem ao Pai...Bjs

Sérgio Christino disse...

Caríssimo,

Nesta "Grande Marcha", só por curiosidade, o Maioral era vivo? Ou será que o episódio foi vivido por um ancestral dele? Não posso me furtar de invadir essa narrativa memoriosa e imaginar a sinfonia dos cacarejo das frangas novas - como sempre espevitadas - e das galinhas velhas tentando se acomodar sonolentas no fundo do saco!!!

Bem mas de qualquer forma, a crônica é sobre o outro Maioral, nosso querido Nei Passos - como o chamávamos lá por casa.

Maravilha, paizano.

Abço.

José Alberto de Souza disse...

Que crônicaço passiano! Beleza pura que nos faz recordar com grande emoção cenas de um passado ainda fresquinho em nossa memória, especialmente da figura ímpar do senhor Ney Passos, se não me engano chegou a vizinhar com meu primo Anysio Resem em sua primeira residência de casado na Rua dos Andradas, entre Carlos Barbosa e General Marques,

J P disse...

Sérgio, creio que tens razão, o Maioral deve ser filho de uma dessas heróicas sobreviventes.
Don José, conversei com meu irmão e o Pai parece que morou naquelas imediações mesmo. Ele e o Seu Anysio tinham grande amizade.

luis garcia disse...

muy bueno maestro,voy a compartirlo en mi muro de facebook,todos en mayor o menor medida,los que vivimos en ese pago, nos sentimos identificados con esas historias de crecidas del río y los intentos desesperados por salvar las pertenencias más valiosas.

Anônimo disse...

Con un lenguaje simple y cargado de ternura en la rememoración de la figura paterna se presenta esta anécdota ubicada en la época de las conocidas crecientes del río Yaguarón.
Se aprecian pinceladas de humor en el discurrir de la anécdota.La imagen surrealista surge cuando se establece el periplo gallinesco por el puente Mauá desde la casa propia hasta la casa Aspiroz. El hecho de que fueran tantas, agrega mayor comicidad a la historia, principalmente por la velocidad con que tuvo que ser realizado el plan de salvataje.
El panorama se amplía al tomar en cuenta la urgencia del momento y el inminente avance de las águas.

Elizabeth Mullins - Montevideo

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