sábado, 20 de agosto de 2011

O QUE FAZER EM TEMPOS DE CHUVA



Esse tempo chuvoso aqui na fronteira convida a ficar em casa e botar a leitura em dia, foi o que fiz. Estou lendo “Olhares sobre Jaguarão”, de Eduardo Souza Soares e Sérgio da Costa Franco. Cheguei à metade, a cada novo olhar não posso evitar fazer comparações com os dias de hoje. A cidade cresceu, o cemitério agora não fica tão afastado da cidade, os casarões ainda circundam a praça, a matriz continua de costas para o rio, temos mais escolas, uma universidade pública, a enfermaria militar vai virar museu, Jaguarão é patrimônio histórico, mas, e as pessoas?


Podemos ver que tivemos alguns avanços em termos materiais, mas ainda temos ruas sem calçar, esgoto a céu aberto, isso pode e vai ser resolvido no devido tempo. Com o advento dos free shops (não sei se é assim que se escreve, nunca fui muito boa em inglês) a cidade recebe muitos turistas, fazendo com que sua economia cresça, pelo menos na área de hotelaria e restaurantes. Nossas portas são famosas no Brasil inteiro, temos o primeiro patrimônio binacional, a ponte Mauá. Possuímos muitas belezas naturais, a começar pelo rio Jaguarão cercado de matas nativas e com variedade de animais silvestres e aves. Continuo a perguntar, e as pessoas?

A narrativa contida no livro é extremamente rica, principalmente as cartas do cônego Thomas Aquinas Schoenaers, dando uma idéia de como se vivia e como eram os habitantes desta cidade fronteiriça. Nas cartas em que fala dos hábitos e costumes há uma passagem interessante:

“Deveis saber que o povo de Jaguarão não trabalha, pelo menos foi o que ontem, ao regressar a casa, Cônego Paulo me disse:“ Observa, Thomas. Se tu encontrares uma pessoa trabalhando podes ter certeza que é estrangeira.” Donde se deduz que nossos cidadãos, para matar o tempo, se debruçam nas janelas escancaradas ou passeiam pelas ruas. ”(SOARES& FRANCO, 2010, p. 73)

Outro aspecto que gostaria de salientar é a relação entre negros e brancos, relação essa descrita em uma das cartas enviadas pelo Cônego Thomas a seu superior na Bélgica e que estão transcritas no livro Olhares sobre Jaguarão:

“[...] nosso fervoroso vigário organizou o Apostolado da Oração. Quatro senhores e senhoras formavam o núcleo central. [...] os  pretos, cujas almas são muito menos negras que as dos brancos  demonstraram interesse em ingressar... [...] vetaram aqueles: negros, fora! [...] e obrigaram o Reverendíssimo Vigário a retroceder que, outra coisa não pode fazer que rejeitar os negros. Assim ocorre em suas sociedades onde o negro é mantido à margem.” (SOARES & FRANCO, 2010, p. 77)

As minhas perguntas anteriores são feitas justamente a partir das reflexões em torno desses e de outros trechos dos olhares dos forasteiros. A cidade mudou fisicamente, mas e as pessoas? Essas também mudaram? Ou continuam com os mesmos hábitos do inicio do século passado? Termino recomendando a leitura do livro dos nossos conterrâneos e que reflitam sobre cada olhar.
 Ana Rullmann
Acadêmica do 6º semestre de Letras - UNIPAMPA



Texto publicado no jornal Fronteira Meridional, edição de 17/08/2011 

3 comentários:

´José Alberto de Souza disse...

O que me inquieta com o desenvolvimento do nosso torrão natal é a derrocada que vem acontecendo com nossos clubes sociais e esportivos, mesmoo após as fusões ocorridas. Será que tudo isso não seria resultante da incompetência de seus administradores? Francamrnte me parece que hoje em dia, salvo honrosas exceções, só ficamos esperando aquilo que venha a cair do céu, de mão beijada...

J P disse...

Don José,fui presidente da Associação Cruzeiro Jaguarense nos anos 90. Realmente a crise nos clubes sociais é muito grande e na época já lutávamos com grandes dificuldades. Um dos fatores fundamentais é a perda de sócios. Um dos motivos é que o carnaval, que era uma grande atração dos clubes e exclusivo para sócios, foi para a rua onde está tendo um tremendo sucesso e participação popular. Esse é só um dos fatores. Mereceria uma investigação maior.

José Alberto de Souza disse...

Ilustre Passiano, então você é uma das honrosas exceções:

Embora â distância, tenho acompanhado sua atuação comunitária, onde constato os desafios encarados pela sua liderança na SIC, além da campanha política como candidato a prefeito da nossa cidade, com o que já o posso consriderar um dos raros EMPREENDEDORES dos dias de hoje.

Outro fator a ser levado em conta diz respeito ao advento da televisão que alienou de forma nefasta a participação de nossa gente na vida comunitária.

A nostalgia parece se enraizar em nosso tempo sem quaisquer outras opções.

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