quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Discurso sobre as coisas que me faltam




Estou em falta. Comigo mesmo, com as palavras que sempre me levaram a todos os lugares onde fui. Estou em falta. Falta com os sonhos transcritos ao papel, com a musa que grita aos meus ouvidos suas histórias, e eu, por preguiça ou descaso, não faço contar.



Em falta com os meus, os que me leem, os que nunca me lerão, os que fingem que se interessam e aqueles que um dia realmente hão de se interessar, ando em falta com coisas demais, coisas que cobram seu preço, nas horas de sono, do meu sonambulismo dormido.

Em falta com o lugar de onde vim, com as coisas que são minhas e me esperam em cada curva que meus caminhos retos inventam. Com as águas do rio da minha terra, com as caminhadas noturnas pelos corredores dos meus amores gastos, pelas ruelas da minha infância ainda gravadas naquele espaço de mundo, que é só meu, e também dos meus.

Ando em falta com aquelas voltas na praça, com o meu lar na fronteira, metade rio, metade sonho, metade adeus, metade até breve. Minhas metades avolumadas sob o véu dos idiomas híbridos, daquela voz que ressoa igual tanto de um lado quanto do outro. Ando em falta com meu espanhol, e meu português anda com saudade do portunhol. Ando em falta com meus continentes, com minhas canções e com meus poemas. Ando em falta comigo mesmo, com quem sou e principalmente com quem quero ser.

Anda me faltando aquela paz. Aquela que só se conhece nas margens do rio Jaguarão, quando tudo é silêncio e somos todos um só, mesmo que sejamos apenas um, um só.


Nicolás Gonçalves 


Texto publicado na coluna Gente Fronteiriça do Jornal Fronteira Meridional, edição do dia 01/09/2011  
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